Activismo – Parte I

“Estou inocente do que nos acusam e assumo o fim da minha greve de fome. Sem resposta quanto ao meu pedido para aguardarmos julgamento em liberdade, só posso esperar que os responsáveis do nosso país também parem a sua greve humanitária e de justiça. De todos os modos, a máscara já caiu. A vitória já aconteceu. E o mérito a seu dono: foi o próprio regime que, incapaz de conter os seus próprios instintos repressivos foi, a cada decisão, obviando a vã promessa de democracia, liberdade de expressão e respeito pelos direitos humanos.

Abracemos todo o amor que recebemos e agarremos todas as ferramentas. Juntos. Já não somos os “arruaceiros”. Já não somos os “jovens revús”. Já não estamos sós. Em Angola, somos todos necessários. Somos todos revolucionários. Foi assim que o nosso país nasceu mas, desta vez, lutamos por uma verdadeira transformação social, em paz.”

(Beirão, Luaty, Sou eu mais livre, Então: Diário de um preso político angolano,, Tinta-da-China, pp 169, Carta aos meus companheiros de prisão)

É com este trecho de uma carta dirigida aos seus companheiros de prisão que o activista angolano Luaty Beirão encerra o seu diário. De seguida inicia-se a segunda parte do livro, uma entrevista de Carlos Vaz Marques. Este documento é um dos três cadernos que Luaty escreveu enquanto esteve preso em Calomboloca. O segundo foi-lhe confiscado na prisão e o terceiro foi escrito “para sessões com a psicóloga”. Tenho nas minhas mãos uma cópia da 1º edição de Novembro de 2016. É um relato dos primeiros 16 dias de prisão “preventiva” numa cela de seis metros quadrados . São pensamentos, rotinas dos dias, desenhos, letras, poemas, influências literárias, activismo político e até duas páginas de anotações sobre meditação. Para além de ser um documento histórico muito interessante, o texto de Luaty toca-nos no âmago e desperta os mais distraídos para uma realidade que estando a 9 mil kms está bem perto de nós portugueses.

Neste despertar surge em Portugal a primeira conferência internacional de Activismos em Africa. Um programa que tem de tanto ambicioso como de corajoso, de três dias inteiros de debates, documentários, lançamentos literários, fóruns, painéis paralelos, mesas redondas de activismo, muito activismo. Denúncias e testemunhos de estórias incríveis, lutas impossíveis de heróis reais. Chego a pensar se voltarei a ouvi-los falar mais alguma vez nesta vida. A conferência “Activisms in Africa” aconteceu nos dias 11, 12 e 13 de Janeiro dinamizada pelo ISCTE-IUL por uma comissão organizadora e por um grupo cientifico invejáveis.

Com muita pena não pude assistir a todas as sessões, fica para uma próxima conferência, mas gostaria de assinalar um momento especial no dia 11, o lançamento dos livros de Luaty Beirão e de Miguel de Barros, Sou eu mais livre, então: Diário de um preso politico Angolano e A Sociedade Civil e o Estado na Guiné-Bissau, dinâmicas, desafios e perspectivas. O outro momento foi uma mesa redonda no dia 12 com Juan Tomás Ávila Laurel, Leo Igwe e Luaty Beirão. Um auditório cheio de especialistas e curiosos, todos testemunhas de um dos debates mais interessantes que assisti nos ultimos anos.

Juan é um intelectual guinéo-equatoriano de elevada projecção internacional. Redator-chefe da Revista de Cultura y Literatura El Patio entre os anos 1999 e 2003, escritor de vários livros e um grande activista pelos direitos humanos na Guiné Equatorial. O governo de Obiang tem tantos anos como os de José Eduardo dos Santos: 37 anos no poder. Foi considerado pela revista Forbes como o oitavo governante mais rico do mundo. São 37 anos de ditadura num país que conquistou a sua independência à Espanha há 49 anos. Juan mostrou-nos um retrato actual de um povo refém de uma ditadura criminosa. São inúmeras as violações perpetradas pelo Governo de Obiang. Tudo o que já tinha lido sobre a Guiné Equatorial num artigo na Visão de 2014 confirma-se. “Prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais, tortura, ausência de liberdade de expressão e de associação. Ausência de tribunais independentes e de Estado de direito, corrupção oficial generalizada. Eleições fraudulentas, restrições à existência de partidos políticos. Violência e discriminação contra crianças, mulheres, gays e pessoas com HIV. ” Juan Laurel tem um discurso grave e sério porque quando fala parece que carrega nos ombros todas estas desgraças da sua pátria. Um semblante dorido, mas cheio de coragem e determinação, aquela determinação própria dos activistas. Uma luta interminável que se leva com uma força inesgotável. Juan é uma inspiração sobretudo pela coragem de ser um activista numa das piores ditaduras de Africa.

Leo Igwe é um importante investigador activista Nigeriano com uma luta no currículo por causas que são muito próprias da região como é “o gigante de Africa”, a Républica Federal da Nigéria. Leo é um incansável defensor dos direitos humanos, na luta contra a homofobia, a feitiçaria, a prática de rituais de bruxaria, rituais de sacrifício e especialmente um assunto que nos impressionou a todos no auditório: “child witch”. Uma realidade impensável, mas ainda possível neste século. Sendo em primeiro lugar um investigador, Leo foi no entanto, o orador que mais me impressionou e mais nos contagiou, com o seu testemunho e as suas estórias de coragem, activismo e combate aos crimes contra a humanidade. Falou desses crimes, de religião, de crenças, de intolerância, discriminação, direitos humanos, violência, mutilação, amputação, tortura, execuções extrajudiciais, a lista é infindável e repete-se em todas as conversas dos restantes activistas.

Se defendermos a ideia de que uma ditadura existe sempre que existe um lider que se recusa a deixar o cargo em eleições justas e livres, as nações africanas sem alternância democrática são muitas. A lista é longa de exemplos de estados autoritários. Angola, Guiné Equatorial, Sudão, Zimbábue, Gabão, Suazilândia, Líbia e Eritréia. Não nos é indiferente o sofrimento destes povos nas mãos de seus governos autoritários, mas colocamo-nos à margem quando tentamos compreender o seu passado e a sua história, da qual somos co-protagonistas. O processo de colonização e dominação de África no século XIX promovido pelas nações europeias durante a corrida imperialista teve várias consequências, mas uma das principais foi o adiamento de um ressurgimento natural dos processos democráticos nos países Africanos. Este neocolonialismo nasce no século XV com a expansão marítima na Península Ibérica e teve efeitos devastadores na história do continente Africano durante os séculos seguintes. Algumas nações conseguiram implantar democracias sãs com eleições livres e respeito pelos direitos humanos, mas são democracias ainda muito jovens

No momento em que aperto a mão a Luaty Beirão e a Miguel de Barros depois de autografarem as minhas cópias dos seus livros, sinto uma enorme admiração por estes activistas, mas de repente sinto também nos meus ombros um grande peso. É uma carga muito diferente da de Juan Laurel. É assim mais como uma espécie de mochila de culpa.

 

Por Renato Vasques Marques