Greve e atividade cirúrgica

Segundo dados fornecidos pelo ministério da saúde, na greve cirúrgica de 22 novembro a 31 dezembro de 2018 foram realizadas 3557 (46%) das 7755 cirurgias programadas, tendo sido reagendadas 3229. A 13 janeiro, segundo dados fornecidos pela mesma fonte, já tinham sido realizadas 30% das cirurgias canceladas pela greve dos enfermeiros.

Qual o impacto desta greve na produção e gestão do serviço nacional de saúde? São várias as dimensões a serem analisadas e merecedoras de reflexão. Desde o impacto económico, na saúde e nas expectativas do cidadão perante o SNS. Neste breve texto focar-me-ei no número de cirurgias efetuadas e seu impacto nas listas de espera.

Analisando o número de cirurgias efetuadas, partindo dos dados disponíveis é bastante percetível o impacto da greve nos três centros hospitalares. O número de cirurgias efetuadas de urgência tem um número ligeiramente superior ao observado em igual período de 2017, assim como nos meses que precederam a greve, tal facto sugere que os serviços mínimos foram integralmente cumpridos pelas equipas de enfermagem. O número de cirurgias foi bastante inferior, tanto em relação ao período homólogo do ano transato como em relação aos meses de outubro e agosto. A comparação com agosto torna-se notável tendo em conta que este é um mês tradicional de férias, onde a atividade programada é bastante reduzida, conseguindo ser, no entanto, superior ao mês de greve.

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Tabela 1 – Número de cirurgias efetuadas

Infelizmente, os dados relativos sobre a lista de doentes em espera de cirurgia que se encontram dentro dos tempos máximos de resposta garantido não reflete totalmente o impacto da greve, pois o mês de dezembro não se encontra disponível. É, no entanto, possível, com os dados disponíveis retirar algumas conclusões interessantes. Em vésperas de se iniciar o período de férias é quando este indicador apresenta os melhores valores do ano, o que sugere um aumento de atividade cirúrgica de forma a compensar um mês de agosto com atividade reduzida. Comparando com novembro de 2017, os valores obtidos em 2018 ficam aquém. Desta análise decorre que apesar de a greve ter tido o seu início a dia 22, o seu impacto foi notório, não permitindo terminar o ano com indicadores semelhantes ao ano anterior.

Tabela 2 – Lista de espera cirúrgica dentro do tempo máximo recomendado

Outra forma de tentar objetivar o impacto da greve na produção cirúrgica, será através da ocupação de camas hospitalares por doentes cirúrgicos. Seriam precisos os dados referentes ao mês de dezembro para efetuar uma análise mais rigorosa. Deste modo, torna-se difícil perceber o real impacto da paralisação. No período em que os dados estão disponíveis, este indicador manteve-se estável. Esta estabilidade aparente pode ser explicada por vários motivos, inclusive pelo aumento das cirurgias efetuadas consideradas como urgentes. É preciso não esquecer que o utente não tem necessariamente de ir ao bloco para surgir neste indicador, basta ser internado numa vaga reservada a este departamento.

Tabela 3 – Ocupação camas cirúrgicas

Não é seguro que todos os cancelamentos durante o período da greve tenham tido como razão exclusiva o conflito laboral. Na realidade, os motivos para um cancelamento da cirurgia são vários, podendo ser agrupados em quatro grandes grupos:

  • Falta de recursos humanos, nomeadamente anestesistas. Uma das maiores lacunas atuais de profissionais de saúde está relacionada com a falta de médicos especialistas em anestesia. Uma equipa de 2 cirurgiões e 4 enfermeiros pode ficar uma manhã sem atividade por falta do anestesista designado.
  • Falta de material específico, algumas cirurgias requerem materiais que pela sua especificidade e custo não é comum haver stock. Um atraso inesperado do fornecedor pode ditar o adiamento da cirurgia.
  • Doença do utente, que torna a cirurgia insegura.
  • Greve e conflitos laborais de uma das classes profissionais envolvidas noprocesso.As recentes greves causaram impacto na produção cirúrgica. Sabemos que não é a única causa que concorre para diminuir a eficácia da atividade do SNS. Esta greve, assim como o recém-descoberto interesse pelas listas de espera cirúrgicas, podem servir de catalisador de mudança e gerador de sinergias que promovam uma melhor eficiência. Necessariamente, terá de passar por mais formação, reorganização dos papéis profissionais, mais investimento em capacidade instalada, melhores e mais integrados sistemas de gestão da informação, e por último, mas não menos importante, carreiras que promovam o desenvolvimento profissional e que reconheçam o mérito aos profissionais de saúde.

Mário André Macedo
Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica marioandremacedo@gmail.comC

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