A Teoria dos Quatro Piscas:

(Ou a permissão do incumprimento)

 

Se existe fenómeno que caracteriza, mais que qualquer outro traço de identidade, o povo português, é a sensação de permissão do incumprimento que nos tranquiliza quando, no trânsito, carregamos energicamente no triângulo vermelho e intermitente que liga, como por magia, quatro luzinhas cintilantes em redor da nossa viatura.

São os quatro piscas que nos permitem estacionar onde não é permitido. São os quatro piscas que nos permitem circular na berma das estradas em situações de trânsito. São os quatro piscas que nos permitem pedir desculpa ao carro imediatamente atrás depois de uma ultrapassagem menos ortodoxa.

Mas hoje em dia os quatro piscas são muito mais do que quatro luzes num carro. Metaforicamente falando, também na política se acionam os quatro piscas. Só que estes quatro piscas que nem sequer iluminam, servem apenas para a dita permissão do incumprimento.

No Barreiro a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia parecem em constante estado de emergência de circulação. Isto porque tudo justifica a sua má atuação, tudo menos a má atuação em si mesma.

Até ao ano passado tudo o que ficava por fazer ou era, efetivamente, mal feito, era culpa do Governo (os chamados quatro piscas nacionais). Agora tudo o que fica por fazer ou é, efetivamente, mal feito, é culpa dos munícipes (os chamados quatro piscas eleitores).

Os TCB começaram a prestar um mau serviço aos moradores dos Fidalguinhos? A culpa é de quem ali mora que não quer dar uma volta de 40 minutos ou deslocar-se 350 metros sabe-se lá em que condições. Os caixotes do lixo estão a transbordar? A culpa é de quem lá põe o lixo, que não é civilizado. A insegurança é constante? A culpa é (ou era) do Governo que não disponibilizava efetivos em número suficiente, mesmo que não hajam câmaras de videovigilância, iluminação ou polícia municipal. Os polidesportivos de acesso público estão em ruínas? A culpa é dos negócios locais que não se querem responsabilizar pela guarda das chaves das infraestruturas municipais.

As estradas sofrem melhorias sempre que há eleições e todas feitas em simultâneo, causando o caos na circulação? A culpa é das pessoas abastadas que andam de carro (esses capitalistas), que destroem o alcatrão e não optam pela alternativa coletiva de transportes. O Barreiro Velho está em degradação visível e acelerada? A culpa só pode ser dos proprietários que não têm uma estratégia comum para o local. A Quinta do Braamcamp e o novo barquinho custarão milhões ao erário público? A culpa é do Festival da Liberdade que só vem cá de 13 em 13 anos e dos muitos turistas que utilizam o Varino Pestarola.

Resumindo: tudo aquilo que acontece de mal na nossa cidade à beira-rio plantada acontece por incumprimento, mas um incumprimento permitido pelos quatro piscas que estão constantemente ligados nos órgãos autárquicos deste Barreiro pouco iluminado por outras luzes.

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