O Montijo, beneficiando de uma inegável proximidade com a capital, deve apostar na mesma, permitindo o maior acesso aos serviços e oportunidades de trabalho. No tocante à travessia do Tejo, entendeu-se que o melhor modo de satisfação da população do Montijo seria a concessão de um monopólio legal à referida Transtejo-Soflusa.

Raras são as situações em que o monopólio traz benefícios. É curioso que, sempre que se discuta a abertura da travessia do Tejo à concorrência, se associe a privatização da mesma. Mais me parece um reconhecimento da ineficiência do serviço, visto que, em condições concorrenciais, a empresa seria colocada em causa pelas concorrentes.

Cabe perguntar, então a concorrência é má e capitalista? Pelo contrário, é a pressão concorrencial que proíbe os prestadores de serviço de explorarem os consumidores. Sem qualquer pressão concorrencial, o prestador pode optar por reduzir as quantidades oferecidas do seu serviço, o que tem consequências a dois níveis: 1) a própria oferta não satisfaz as necessidades da procura, causando uma distribuição ineficiente dos recursos, incumprindo o propósito de assegurar a prestação de serviços adequados de interesse público às populações; 2) a escassez de oferta não pode ser combatida pelos concorrentes, pois estes não existem, estando a disponibilidade do consumidor totalmente manipulada pelos dados distorcidos do mercado. Em suma, se existe menos oferta e não existe alternativa, o consumidor tem de aceitar pagar mais. Todos estes conceitos poderão ser confirmados na literatura económica: Jospeh E. Stiglitz, Carl E. Walsh, Economics, 4º edição, Nova Iorque, W. W. Northon & Company Ltd, 2006, pp.215-229; W. Kip Viscusi, Joseph E. Harrington, Jr. John M. Vernon, Economic of Regulation and Antitrust, 4º edição, Londres, The Mit Press, 2005, pp.79-100; Robert H. Frank, Microeconomics and Behavior, 7º edição, Nova Iorque, McGraw-Hill, 1997, pp.29-32 e 337-338; Fernando Araújo, Introdução à Economia, 3º edição, Coimbra, Almedina, 2012, pp.135-195 e 228-237.

Por fim, importa abordar quais são os resultados desta política. Sem querer abordar as chocantes falhas de serviço, resultantes da supressão de frotas e constantes avarias, vamos limitar-nos a abordar o serviço normal, que representa desvantagens suficientes: 1) os barcos utilizados pela frota são anteriores à construção da Ponte de Vasco da Gama, vendo associados aos mesmos um autêntico desconforto e lentidão; 2) o horário é digno de uma comédia infeliz. Em hora de ponta, separa-se meia hora entre os barcos disponíveis, quando nas restantes cidades chegamos a notar diferenças de 10-20 minutos. Na verdade, ao longo do dia, as diferenças entre barcos correspondem a uma hora ou uma hora e meia. É deveras impressionante que entre as 9h30m e 15h30m beneficiamos de 5 barcos em 6 horas; 3) a própria viagem prevê uma duração média de 25 minutos, quando, na verdade, costumam ser mais de 30 minutos. Tudo permitido face à ausência de concorrência e consequente possibilidade de operar lentidões com o fim de poupar combustível.

Com estes resultados, é curioso que a esquerda defenda a justiça social, quando os preços e condições praticados pelos serviços resultantes deste socialismo são tudo menos justos. A política socialista restringe o comércio, com uma consciência aparente de permitir o acesso aos serviços por parte dos mais desfavorecidos. O resultado é, todavia, aquele que indicámos, todos passam a aceder a um mau serviço.

Nuno Salpico – Vice-presidente da JSD Montijo

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