Já muito foi dito sobre este último ato eleitoral no Brasil, mas como segui de perto estas eleições, vou também usar este espaço para aqui deixar a minha opinião, não sobre a campanha, não sobre a justiça da vitória da presidente Dilma, não sobre se o PT é melhor ou pior que o PSDB. Vou escrever sobre o ataque à democracia que aconteceu no rescaldo da renovação do mandato da presidente.

Cerca das 22 horas em Portugal no passado dia 26 de outubro era anunciado que Dilma Rousseff tinha sido reeleita presidente do Brasil, e logo nesse momento as redes sociais foram invadidas pelos mais diversos comentários ofensivos e de um excesso de mau perder, não do Aécio, não dos seus apoiantes (pois cair na generalização seria um erro demasiado fácil) mas de alguns cidadãos que só percebem a democracia umbilical.

Deste ataque à democracia retenho seis pontos fundamentais e estruturais que sendo o sustentáculo das nações democráticas foram gravemente atingidos pelas reações aos resultados eleitorais:

  • Um crescente clima de racismo contra os nordestinos, com um crescimento nas mensagens de ódio contra esta região brasileira superior a 342% (dados da SaferNet Brasil);
  • Uma vulgarização da linguagem e a leviandade com que se caiu no insulto fácil, chamando “tremendo ignorante”, “miserável”, “analfabeto vagabundo”, entre tantos outros que nem me atrevo a transcrever neste artigo, àqueles que votaram em sentido diferente dos ofensores;
  • Sugestões de segregação e divisão do país. Alguns comentários eram acompanhados de uma imagem de um mapa do Brasil em que se propunha a separação do país com um muro (qual muro de Berlim ou colonato Israelita) para dividir os Estados PT dos Estados PSDB, surgindo-me a dúvida sobre onde se colocaria quem não se revê em nenhum dos dois (vai para um campo de concentração?).
  • Alguns comentários visavam o claro fim da democracia com expressões como “sugiro que nas próximas eleições a gente tire o direito do nordestino de votar”, fazendo voltar à memória os tempos do império em que só os ricos podiam votar. Cheguei aliás a ler a opinião de alguém que defendia que pessoas sem estudos não deveriam ter direito a voto.
  • Atentado sobre símbolos nacionais como por exemplo faixas negras sobre a bandeira do Brasil para mostrar o desagrado com a decisão da maioria.
  • Por fim, importa também refletir no peso do estado social. Este resultado eleitoral mostra que existe uma clara divisão nos eleitores sobre a intervenção do Estado na economia. Se por um lado um estado social forte pode levar a uma habituação ao facilitismo de ter alguém que resolva os problemas, por outro aqueles que nunca necessitaram de recorrer a estes mecanismos só lhe dão o devido valor quando dele necessitam (a recente crise europeia é disso exemplo, milhares de cidadãos que viviam vidas desafogadas foram confrontados com situações de pobreza na própria casa). Não vou discutir neste artigo a importância de um estado mais ou menos interventivo, apenas quero chamar a atenção para a existência de uma clara cisão entre eleitores neste ponto.

Se o dedo pode ser apontado a alguém, que o seja aos 21% que ficaram em casa e não fizeram valer o seu direito/dever de voto, e se abstiveram de escolher o futuro do Brasil, depositado a sua confiança nos restantes 79%.

O partido em que cada um votou, e em que cada um acredita como a melhor escolha para o seu país, não deve ser um rótulo, nem colocar o cidadão numa posição de fácil chacota. Não me compete a mim opinar se a Dilma é melhor escolha do que o Aécio, se os escândalos em que cada um alegadamente está envolvido são verdade ou não, isso compete aos eleitores brasileiros. A mim observador atento do que se passa no mundo compete com a distância necessária avaliar as situações, e sem tomar lados oferecer uma opinião livre.

Contudo, no meio de tantos maus exemplos de utilização da língua portuguesa e da liberdade de expressão, conseguem-se retirar bons exemplos, como a frase com que gostaria de terminar este artigo, escrita por Clécio Camargo num comentário no facebook “mas se a maioria pensa o contrário, tudo bem. E ponto final, vamos virar a página”.

 

Valter Bação-Ferreira

CEO – Update Cities

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