Nem todo o Fado é tradicional, tal como nem todas as fadistas nasceram nos bairros típicos de Lisboa.

Cristiana Águas nasceu em Setúbal, e é uma das mais promissoras vozes do Fado.

Descobriu o Fado aos 11 anos e hoje faz dele a sua vida e a sua forma de transmitir aos outros o que lhe vai na alma. «Cristiana Águas» é o seu álbum de estreia, um disco que fala da “ingravidez do mundo, no seu presente e num futuro melhor” e que é, simultaneamente, uma homenagem a Setúbal e ao Sado.

É também lá fora, do outro lado do Atlântico, que a jovem tem dado que falar, depois do seu dueto com o incontornável artista brasileiro Ney Matogrosso. É que Cristiana já não é só nossa. Cristiana é como o Fado. Cristiana é do mundo.

Esta noite, às 21h30, regressa ao palco que a viu nascer para o Fado: o palco do teatro Luísa Todi, hoje Fórum Municipal. Para a artista este regresso é “como ir pedir a bênção necessária à terra onde se nasceu”.
Distritonline [DO]: Em que momento percebeu que queria ser fadista?
Cristiana Águas [CA]:
Desde sempre que gostei de cantar, mas aos onze anos de idade deu-se o encontro com o Fado e, desde então, vivo abraçada a ele.

DO: Quando estava a crescer, passou por alguma fase de negação em relação ao Fado?
CA:
Nem sempre foi fácil conciliar os estudos com o cantar fado todas as noites. Dormia poucas horas, passava a vida a estudar e a trabalhar e tinha que me organizar muito bem para não haver faltas em nenhum dos dois. Aproveitava os intervalos do fado para estudar sempre, mesmo sem testes ou exames. E, chegava a casa e ainda ia estudar ou fazer o “TPC”. E o mesmo na escola; aproveitava os intervalos para estudar, pesquisar músicas e fados, e, costumava estar sempre de fones nos ouvidos, de papel e caneta em mãos. E era extremamente injusto ver que todo este esforço nem sempre compensava, porque eu achava, na minha maneira perfeccionista de ser, que as coisas que idealizava deviam correr sempre bem. Mas nunca baixei os braços, e continuei a cantar, e a desabafar em cada melodia que interpretava.

DO: Deu voz a Amália enquanto jovem no filme homónimo. Dessa aventura, que lição destaca?
CA:
Foi incrível, uma experiência única que jamais esquecerei. Foi uma honra dar voz aos seus 20 anos na longa-metragem do seu filme biográfico e homenagear a minha primeira e grande referência do Fado: a Amália Rodrigues. Tive que encarnar, de certo modo, o papel de actriz. Foi me cedido o guião nas partes que cantava para entender todo o contexto em que se enquadrava cada fado na vida de Amália. E carreguei o peso da dor de assistir ao enterro de minha irmã – irmã mais nova de Amália – ao cantar o “sabe-se lá”. Foi muito difícil, e até hoje guardo na memória o que me passou pela cabeça nesse momento.

Relativamente à lição, tinha muito pouco tempo para tentar igualar o mais possível o seu estilar e o tempo inigualável de Amália cantar, por isso, estava permanentemente com fones nos ouvidos, em casa, a cantar até tarde e a más horas. Esta situação deu-me direito a um post-it florescente debaixo de minha porta de casa, logo pela manhã, colocado pelos meus vizinhos, que dizia “À noite não se canta, dorme-se!”. Esta foi a lição (risos).

DO: A Amália Rodrigues é, certamente, uma influência enorme. Que Fado cantaria para ela?
CA:
O Fado que tem o seu nome; “Fado Amália”, ou o “Grito”.

DO: <<Cristiana Águas» é o seu disco de estreia. Fale-nos dele…
CA:
É um disco de uma fadista em nome próprio, com uma nova abordagem à alma de quem o canta. É um disco descritivo, de imagens. É também uma homenagem à minha terra natal e ao rio Sado.
Diz muito de mim, e até me surpreendeu conhecer esta Cristiana, Cristiana Águas. Como um renascer das Águas do rio Sado.
Transporta nos para um sonho não menos real. Fala da ingravidez do mundo, no seu presente e num futuro melhor, e o curioso e acaso do destino é que o disco foi gravado num estado meu de gravidez. Foi quase como ter gémeos.
Contou com parcerias de músicos e compositores de excelência, como: Dadi, Diego Vasallo, Léo Minax, Mú Carvalho, Ricardo Silveira,Jorge Hélder, Jurim Moreira, Paulo Mendonça, Gustavo Roriz, Nilson Dourado, Luis Guerreiro, Pedro Esteves, Luiz Caracol, Philippe Baden Powell, Mário Pacheco, Carlos Leitão, António Quintino, Lula Ribeiro, Pierre Aderne. Com a participação especial em duetos com Pedro Moutinho, Cuca Roseta, Ney Matogrosso. Gravado entre Lisboa (Atlantic Blue Studios) e o Rio de Janeiro ( Boogie Woogie Studios). Com masterização de Mário Barreiros. Um trabalho produzido por Pierre Aderne. Com fotos de Alfredo Matos e de Sérgio Pagano. Com a parceria e apoio do Museu do Fado e TSF.

DO: Como é que tem sido a reacção ao álbum?
CA:
Muito boa!  As pessoas que ouvem o disco gostam e falam dele como algo muito descritivo, que é sentido na pele quando se assiste a um concerto ao vivo. É excepcional ver o sorriso no olhar das pessoas a cada tema que canto. Simplesmente deliciosa, a expressão. E bastante gratificante.

DO: Numa entrevista a Cristiana dizia que nenhum dos temas presentes no disco de estreia é, efectivamente, Fado tradicional. De que forma esta nova abordagem que traz ao Fado pode atrair os mais jovens?
CA:
Nunca me preocupei com essa questão ou tive a intenção de chamar público de determinada faixa etária até mim. O produtor queria que fosse um disco de Fado desconstruído, sem amarras, porque afinal a génese do fado estaria lá.
E depois, qual é graça, de ouvirmos o que idealizámos?
Mas afinal, o que se espera de uma fadista? Que cante fados tradicionais… Mas não é isso que vai encontrar neste disco, vai para além disso. Deixo ao ouvinte esse poder de descrição. Não me cabe a mim fazê-lo, eu já fiz a minha parte.

DO: Já cantou com Ney Matogrosso, Cuca Roseta e Pedro Moutinho, com quem é que gostava de ter oportunidade de partilhar o palco?
CA
: Adoraria partilhar o palco com José Mário Branco. Também com a amiga e talentosa Melody Gardot e Gal Costa.

DO: Já descobriu porque é que o Fado comove até quem não fala a nossa língua?
CA:
O Fado é uma língua universal! Chega facilmente às pessoas pela sua similitude singular. Todos nós sentimos saudade, porém só nós portugueses a descrevemos numa única palavra. Poucas canções falam tanto de sentimento como o Fado.
Quantas vezes os estrangeiros vêm ter comigo, depois de me ouvirem cantar, e dizem: “eu não percebi uma única palavra do que cantou, mas entendi e senti tudo!”. É arrepiante pensar em como é possível conseguir passar a mensagem de um poema, através desta música chamada Fado.

DO: Era capaz de gravar um álbum que não fosse, de todo, fadista?
CA:
O meu compromisso é para com a música, com os poemas que dizem à minha pele, ao meu coração. E não estaria a ser leal a mim mesma e ao dom que Deus me deu, se me prendesse ou preocupasse com o que os outros pensam, ou com estereótipos puristas, que respeito mas não concordo.
E sim, é a minha resposta! Pois tudo o que possa vir a cantar terá sempre algo de Fado, inevitavelmente; mesmo que seja rock, samba, pop. Pois o Fado está no meu ADN, querendo ou não, é no Fado que me reconheço.

DO: Sente que está numa fase de afirmação?
CA:
Não. Isso não faz parte de mim. Eu tento redescobrir-me todas as vezes que canto numa introspecção humilde de aprendizagem.

DO: Fale-nos sobre a sua “Alma Sadina”?
CA:
A alma Sadina foi escrita e musicada pelo produtor de meu disco, Pierre Aderne. Pedi-lhe que fizesse um hino em homenagem à minha terra natal, que me viu nascer. Nessa mesma altura, representava uma marcha popular de Setúbal, como Madrinha, e estava grávida de seis meses, onde tudo foi vivido mais intensamente.

DO: Hoje regressa a ‘casa’, ao Fórum Municipal Luísa Todi. Quais são as expectativas?
CA:
É com alguma nostalgia. Que recordo o momento em que fui baptizada pelo palco Luísa Todi, sendo o primeiro palco que me estreei a cantar com nove anos de idade e depois aos onze, cantando fado pela primeira vez. Desde então o fado é parte da minha vida.
E mal sabia eu que seria lá que iria fazer o clip do meu disco de estreia, e que voltaria a reviver momentos de infância, onde de certa forma, tudo começou. É como ir pedir a bênção necessária á terra onde se nasceu.
Espero que o público, aprecie a música desta Sadina fadista, que tem algumas surpresas preparadas para este sábado.

DO: Se a vida da Cristiana fosse uma música, que música seria?
CA:
“Quando eu era pequenina”, criação de Amália Rodrigues ou “Força estranha” de Caetano Veloso.

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