O distrito de Setúbal é essencialmente comunista. Porém, o comunismo que existia há quarenta anos é diferente do comunismo actual. O mundo mudou, não só devido à tecnologia, às novas gerações, aos ideais cevados, à estrutura colectiva e laboral, mas também pela forma como a política em si é constituída e florescida na mente da população. 

Como é apanágio, as pessoas apenas absorvem os valores das gerações anteriores, inclusive valores políticos. Muito da aderência ao comunismo actual é somente uma transferência genética do DNA ideológico de pais para filhos, os quais tomam os valores dos seus anterior sem os questionar. Nasce o dogma. Poucas são as pessoas que realmente ponderam o seu caminho, os seus valores, e ideologias em relação ao partido a que aderem. 

Mas em que consiste os valores comunistas, propagados ao longo das gerações?

Remontando ao comunismo visceral, os seus ideais incluem a rejeição da igreja, pois cleros enganavam, roubavam, dissimulavam o povo com a palavra de deus, e chegavam a ter mais poder que reis. Isto para deixar perpetuar as injustiças socias e desigualdade de oportunidades, e que o clero vivesse como «rei». Estou a elucidar uma ideologia antiga, íntima, que suporta os valores do povo, que luta pela igualdade de oportunidades, que todos tenham o mesmo acesso aos diversos privilégios, à abolição do Estado, que promove desigualdades. Luta, este, para que não haja classes sociais. Tudo em prol daqueles que não sabem proteger-se, porque a sua conta bancária, o DNA económico da sua família, a informação genética monetária de gerações passadas, é fruto de injustiças social, – como vê o comunismo. 

Estes ideais mantêm-se vivos no mundo actual, mas adaptados às necessidades da nova Era. Apesar da personalidade do comunismo parecer nobre, é sabido que qualquer nação que foi regido por ele acabou na devastação. E por outro lado, Setúbal é um dos distritos mais empobrecidos de Portugal. 

Há uma comparação que me fanfurrio a fazer em relação aos comunistas, cotejando os seus ideais à inveja. Não uma inveja pejorativa, mas uma inveja pró-activa. Os desfavorecidos vêm-se como privados de algo, baseado no sistema da sociedade, e daí advém emoções básicas, complexos de inferioridade, um certo canibalismo em relação aos seus semelhantes. Acontece que dessa inveja pró-activa, acaba-se por lutar para que seja absolvido o sistema económico que perpetuou na sociedade desde há anos, e que seja instituída a equidade. Nesta comparação, os ideais comunistas germinam das emoções básicas do ser humano, para que seja feita a justiça merecida. 

Para finalizar, gostaria de dizer que existe dualidade em tudo. O homem apresenta dois cérebros num só, o que permite ver cada situação pelos dois lados da moeda. Cabe a cada um discernir o lado da moeda em que aposta, o que seja mais vantajoso, não só para o indivíduo, mas para a sociedade, e que seja absolvido o dogma, o DNA das ideias familiares, propagados pela reprodução, que somente alimentam a estagnação da sociedade.  

ANDRÉ FILIPE SILVA, ESCRITOR

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