Sinceramente, ó homem, tu que te intitulas de «Homo sapiens» (traduzido para «homem sapiente») como podes ser tão pouco erudito e até menos civilizado que um macaco no seu habitat natural? A sociedade e a civilização correspondem ao teu habitat natural, e já reparaste como operas? Ora, fizeste de ti próprio uma criatura que procura a luta pela sobrevivência, mas onde está a tua sapiência? Talvez o sistema educativo, a família, as normas da sociedade, o código civil, a religião, a política, os dogmas tornam-te estúpido, humano, e não é que, ironicamente, semelhantes coisas foram originados pela tua sapiência? Tudo pelo material verde da Árvore predilecta de Deus, o dinheiro. Mas de onde vem tanta estupidez nos dias de hoje? A estupidez que falo corresponde às seguintes normas…

Norma de vida: estude, adquire conhecimento inútil, para vomitá-lo nos testes e exames e depois esquecê-lo. Norma de vida: trabalhe para que consiga umas férias de uma semana, quando passa oito horas por dia a pensar na próxima sexta-feira, na próxima bebedeira. Norma de vida: sê o neto que a avozinha dá um beliscão na bochecha, sendo o referido neto um trapaceiro, um desordeiro, um rebelde, demonstra somente a faceta que a família quer ver. Norma de vida: seja o produto de toda uma indústria, que apenas quer alimentar as grandes corporações e organização. Norma de vida: esteja ocupado, e que essa ocupação preencha-lhe o vazio que tu, ó humano, carregas dentro de ti. Norma de vida: procurares por prostitutas, o apocalipse; pena é que os anjos não tenham sexo. Norma de vida: tenha uma alimentação saudável, mantenha o seu corpinho Danone para atrair o sexo oposto, numa noite que provavelmente acabará por aí e que não voltar-se-á a repetir, porque a rapariga é insegura, cega de amor, e o rapaz, um mulherengo. 

É disso que constitui o ser humano da actualidade. Educado para ser estúpido. E eis que desse grande título que damos a nós próprios, o «homem sapiente», qual taça cheia de licor de conhecimento, é bebida, a dita taça, pela sede da estupidez que o homem exibe tão naturalmente. A verdadeira educação começa na escola, quando o rapaz e a rapariga começam a interagir com outros da sua idade, a puberdade que se desperta. E num mundo tão artificial, tão virtual, tão mesquinho como o actual, somente podemos esperar por criar ineptos, uma inteira geração que tenta seguir com os normas de vida acima referidas, – dado que os tempos modernos, a educação, a escola, a vida em sociedade assim o conduz. Marionetas, numa palavra…

Como é dito, ó humano, tu és um ser que vive mas não sabe viver. Não existe fórmula para a vida, mas tu queres tão desesperadamente encontrar um estilo, algo que te permita viver cómodo e em conformidade com a estupidez que é-te ensinada. Tal como prestas demasiada atenção ao que vestuário de outrem que o seu carácter. Sapiência, quando foste educado para ser estúpido?  

ANDRE FRAGOSO SILVA, ESCRITOR