Entre o Tejo e o Sado, perdido no trânsito rodoviário.

Em junho deste ano, estava eu no Brasil, a convite da Prefeitura de Canoas para apresentar um painel sobre “Participação dos Cidadãos”, quando a organização me abordou para apresentar um segundo painel sobre “Integração Metropolitana”, tema que muito me interessa. Acresce ainda que, pelo facto de ter estado envolvido em fóruns de discussão sobre o futuro da Área Metropolitana de Lisboa, me sentia confortável para abordar a temática.

Sendo eu do Seixal, vivendo sempre com o rio à frente, e com vista privilegiada sobre o Barreiro, Almada, Montijo, Lisboa, etc., optei por me debruçar sobre a (des)integração metropolitana da Área Metropolitana de Lisboa, da qual o distrito de Setúbal faz parte, e que é representado com 9 dos 13 concelhos que o compõem.

Esta é uma área metropolitana que comporta 20% da população nacional, dezoito municípios, dois estuários, uma frente atlântica, várias áreas protegidas e reservas naturais. Seria de esperar uma maior cooperação intermunicipal, contudo os utilizadores desta “metrópole” são diariamente confrontamos com problemas, que não são exclusivamente seus.

Regressando ao Brasil, concretamente ao painel sobre “Integração Metropolitana”, no qual eu era o único europeu, identificaram-se problemas comuns às diversas áreas metropolitanas presentes, sendo o problema mais focado e debatido o da mobilidade dos cidadãos.

Alguns dos cenários que grande parte dos moradores do distrito de Setúbal conhece são:

  • Uma autoestrada (A2) afunilada numa Ponte 25 de Abril com filas frequentemente superiores a 8Km;
  • A mesma A2 virada a Sul completamente vazia devido ao elevado custo das portagens;
  • Uma estrada nacional (N5) e um itinerário complementar (IC1) em muito mau estado especialmente no troço de Grândola, fazendo perigar os utilizadores do mesmo.
  • Não existência de intermodalidade em grande parte dos operadores de transportes da área metropolitana de Lisboa, servida por quase trinta marcas de transporte diferentes[i];

A tudo isto acresce ainda o elevado valor das tarifas, a ausência de infraestruturas de estacionamento gratuito ou a preços amigáveis nos principais interfaces, a ausência de horários complementares entre “marcas” diferentes, e as cada vez mais comuns greves dos trabalhadores que reivindicam os seus direitos.

Resultado: Esgotadas as alternativas sustentáveis no longo prazo, os cidadãos serão obrigados a voltar-se para o transporte individual e a consumir grande parte do seu dia em filas de trânsito, contribuindo significativamente para a degradação ambiental e para a perda de qualidade de vida nas cidades.

Estando a área metropolitana de Lisboa no geral e o distrito de Setúbal em particular excecionalmente expostas ao rio, aliás aos rios, Tejo e Sado, porque não utilizar o seu potencial para reduzir distâncias e criar novas alternativas de transporte? Porque não táxis marítimos?

Proponho que façamos um pequeno exercício:

  • Qual a distância atual Seixal-Barreiro ou Almada-Barreiro? Aproximadamente 16 Km e 24Km, respetivamente.
  • Qual a semelhança entre estes três concelhos? Os 3 têm estrutura portuária de passageiros.
  • Qual a distância das estruturas portuárias (via marítima)? Cerca de 1,5 Km e 7 Km, respetivamente.

Com os táxis marítimos obter-se-iam economias de tempo graças à redução das distâncias, o meio ambiente não seria tão prejudicado pelo dióxido de carbono emitido pelas viaturas particulares, a disponibilidade da travessia deixava de estar sujeita a horários rígidos, em situações anómalas os cidadãos tinham mais alternativas há sua disposição e criar-se-ia um novo setor de atividade promovendo o emprego e a criatividade.

Será uma ideia utópica? Se tomarmos como exemplo as cidades de Roterdão na Holanda, Auckland e Queenstown na Nova Zelândia, Boston e Nova Iorque nos EUA e claro a óbvia Veneza em Itália, entre tantas outras, a resposta será um redondo “não”.

Tratando-se apenas de uma opinião, gostava de a ver amplamente discutida e participada por todos. Mais ainda quando a Lei n.º 75/2013 atribui competências às áreas metropolitanas na mobilidade e transportes intermunicipais.

 

 

Valter Bação-Ferreira

CEO-Managing Director at Update Cities – Associação para o Desenvolvimento



[i] A palavra que quero usar é mesmo “marcas”, porque algumas são da mesma empresa canibalizando-se entre si e não se integrando.

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