A pequena-grande alfacinha de xaile nos ombros e mão na anca, de nome Deolinda, erguer-se na voz de Ana Bacalhau, mas vive, na verdade, dentro de cada elemento da banda.
O grupo surgiu em 2006, mas foi com a canção «Parva que sou» que agarrou imediatamente o público e fez estremecer os coliseus, tornando-os, efetivamente, um dos maiores fenómenos da música portuguesa.
Da música à crítica social, o grupo de música popular, em conversa com o Distritonline, aborda os segredos do projeto que cativa miúdos e a graúdos e dá a conhecer ‘fora de portas’ a cultura portuguesa.  

Distritonline [DO]:  Quem são os Deolinda e, particularmente, quem é a Deolinda?
Ana Bacalhau [AB]:  Os Deolinda são um coletivo de músicos que juntaram-se com o objetivo de construir uma ideia pessoal e personalizada da canção de raiz portuguesa. E, a Deolinda é a personagem que dá a cara e as vestes a esta ideia. No fundo, a personagem que confere personalidade a este projeto.

DO: Fernando Pessoa multiplicou-se em vários heterónimos. Vocês os quatro, pelo contrário, unificaram-se numa personagem. É uma relação pacífica?
Luís José Martins [LM]: Até agora tem sido fácil (risos). Antes de mais, porque é uma relação familiar, somos dois irmãos, uma prima e o marido da prima e penso que esse facto ajuda a simplificar a relação. E, sobretudo, porque trabalhar canções em português e trabalhar este universo é definitivamente o que nos une e o que nos motiva.

DO: Quando surgiram esperavam que Os Deolinda transformassem-se neste fenómeno?
LM: Não. De modo algum. Queríamos, acima de tudo, fazer músicas juntos. Começámos por atuar em pequenas salas e não imaginávamos que íamos conseguir atuar em palcos com esta dimensão. Depois, começámos a cantar em salas maiores, mais tarde em festivais de verão e posteriormente no estrangeiro…

DO: São considerados uma espécie de repórteres musicais dos costumes portugueses. São-nos por coincidência ou por opção?
Pedro da Silva Martins [PM]: Essencialmente, houve aqui a junção de três fatores: a experiência, a surpresa e a perceção de que este era um caminho viável. Penso que a Deolinda nasceu com o nosso olhar e a nossa forma de ser, ou seja, é divertida, mas também atenta à sociedade e as nossas canções refletem isso mesmo.

DO: Conseguem definir o vosso estilo musical?
AB: Com alguma dificuldade e, provavelmente, com alguma imprecisão, ainda assim diria que é música popular portuguesa, porque neste núcleo está englobado o fado, a música tradicional, o folclore, a música de autor… No entanto, também somos influenciados por música não-portuguesa, mas essas influências convivem saudavelmente com a música da Deolinda.

DO: O humor que colocam, habitualmente, nas vossas letras é uma forma subtil de colocar as pessoas a refletir e a questionar sobre o mundo?
LM: Acredito, sinceramente, que é uma expressão natural. Provavelmente, por ser dito num português mais contemporâneo chega mais rapidamente às pessoas. Em Portugal, durante muito tempo utilizou-se um português muito clássico, mas agora há efetivamente uma nova geração de músicos que trabalha a canção de outra forma.
AB: O mais engraçado é que a nossa música que suscitou mais debate é a «Parva que sou», ou seja, precisamente a canção cuja letra que não tem humor.

DO: Ficaram surpreendidos com o sucesso da música «Parva que sou»?
AB: Surpreendeu-nos as reações do público e depois os efeitos colaterais da canção.
PM: Acredito que tocámos numa ferida que existia na sociedade e, imediatamente, começámos a perceber que as pessoas estavam a identificar-se, de uma forma quase imediata, com a canção, uns porque estavam naquela situação, outros porque conheciam alguém que estava a passar por isso… Por exemplo, ainda hoje somos bastante solicitados para expressar a nossa opinião sobre acontecimentos sociais e políticos da atualidade nacional, algo que até aquela altura não acontecia.

DO: Sentem que o público espera que voltem a fazer mais “hinos”?
AB: Eu espero que não esperem (risos).
PM: As pessoas é que fazem os hinos, não são os músicos.

DO: Numa época em que reina o politicamente correto, a língua afiada da Deolinda é um dos segredos do vosso sucesso?
AB: Na minha opinião, o politicamente correto pode levar, por vezes, a uma espécie de autocensura e isso é perigoso. Por exemplo, há poucos dias, assisti a um documentário sobre o Kurt Cobain e apercebi-me que existe de facto uma diferença abissal entre atitudes que eram, de um modo geral, aceites que os músicos tivessem e as que podem, de facto, ter hoje em dia. Se há 25 anos a postura irreverente e provocadora do Kurt Cobain era considerada normal e aceitável, hoje em dia essas atitudes seriam censuradas na MTV e isso é de facto preocupante.
LM: Falta-nos enquanto povo perceber que há pessoas com opiniões diferentes e saber respeitar, debater essa forma de ver a realidade e, sobretudo, saber conviver com essa diferença.

DO: O que manda é realmente a vontade?
AB: Sempre!

DO: O que podemos esperar do novo álbum?
PM: Que venha com saúde e cresça saudável (risos).
AB: Ainda não conseguimos adiantar datas de lançamento. Estamos atualmente a trabalhar nas canções novas e a apaixonarmo-nos por elas que é o mais importante.

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