Hoje, Dia da Mulher, celebramos o dia que assinala vitórias e conquistas históricas para o sexo feminino e que, infelizmente, continua a ser importante para sinalizar as desigualdades de género que ainda não se conseguiram combater e que nos são difíceis entender. É habitual no Dia da Mulher que as redes sociais se encham de flores. As associações e as câmaras oferecem-nas, os cafés têm-nas à porta. Este ano o mesmo não será possível.

Receber um ramo de rosas é belo e qual é a mulher que não gosta?! Mas as mulheres ganharem em média menos 12,7% do que os homens, olhando à sua remuneração mensal base, de acordo com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego já não o é.

O princípio da igualdade de remuneração por trabalho vem desde o Tratado de Roma, em 1957, mas o problema permanece atual. Segundo a Eurostat, fonte estatística, a diferença salarial entre géneros na União Europeia é de 14,8% (2018). A mesma fonte, no mesmo ano, mostrou que mais de 80% dos lugares em empresas tecnológicas, por exemplo, são ocupados por homens, associando-se a área ao sexo masculino. Em abril de 2019 cerca de 31% das mulheres recebiam o salário mínimo, face a 21% dos homens. Na lei não temos 10% de diferença. Na constituição não temos 10% de diferença. Qual a nossa diferença no mercado laboral?

Sabe-se também que é no Alentejo onde a disparidade de valores é maior. Será por uma questão de menor literacia como também os dados expõem? Por uma questão de tradição? Nos campos alentejanos há muitas flores, mas são precisos também direitos. 

A mão de obra feminina cresceu ao longo dos tempos. As mulheres estão nas empresas, em engenharias e na tecnologia. As universidades estão carregadas de mentes inteligentes, mulheres, mas 70% dos cargos mais altos e administrativos são ocupados por homens, numa sociedade onde as mulheres existem em maior número e por essa razão devíamos refletir.

À entrada de um emprego, não nos perguntem se queremos ser mães, porque isso põe em causa o nosso percurso. Deixem de impedir que isso nos possibilite uma subida. Carregar um bebé não descredibiliza a qualidade e o profissionalismo de ninguém. Também não queremos elogios simpáticos às roupas ou que nos perguntem como nos corre a vida para depois nos pedirem horas extra sem pagar.

Podem dar-nos uma gerbera, uma margarida ou uma tulipa, mas só se depois não nos chamarem nomes só porque sim. Dêem-nos bouquets coloridos e permitam-nos andar na rua sem uma aura cinzenta. Sem piropos a cada esquina, assobios em cada rua, sem assédio. Sem idas à discoteca com perseguições e apalpões no rabo. É hora de termos uma sociedade que compreende que não com é o álcool, as luzes baixas, as pessoas juntas e música aos berros, que alguns direitos mudam. Os nossos corpos são nossos. O meu é meu. O teu é teu.

Os homens e as mulheres têm muitas diferenças, principalmente biológicas, isso é um facto, e ainda bem pois caso contrário não teria graça. No entanto, não é suposto existirem desigualdades entre os géneros, que em vários campos da sociedade continuam a ser gritantes. As diferenças salariais e o assédio são duas das piores questões que quero vincar. Porque haver mais, há… Ou não esqueçamos a mutilação genital feminina praticada por esses países fora… Deixemos a cultura patriarcal que acredita que o lugar da mulher é na cozinha e que proíbe a progressão de carreiras por causa da maternidade. Não queremos, ou pelo menos eu não quero, uma sociedade que desvalorize os homens. Quero sim uma sociedade igualitária e justa, na qual cada mulher assim como cada homem, possa ser livre.

Chegámos depois (lembro-me sempre do direito ao voto nesta chegada posterior) mas estamos aqui. Se o Dia da Mulher ganha importância ano após ano é porque a sociedade não dá importância à igualdade de género ano após ano. Para nos valorizarem não compactuem com direitos diferentes. Pelas nossas conquistas, hoje, ofereçam-nos flores. Flores não valorizam ninguém nem pagam contas, são só bonitas e traduzem um simpático gesto.

Marta Raimundo

08 de março de 2021

Juventude Popular Distrital de Setúbal