Distritonline (DO): Conte-nos um pouco do seu percurso profissional e como chegou a director da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro?

Pedro Ferreira (PF): Terminei a licenciatura em Engenharia Civil em 1998 e iniciei a atividade profissional, nessa área de formação, como bolseiro de investigação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde permaneci até conclusão do curso de mestrado em 2000. Após a conclusão do mestra- do em Engenharia de Estruturas, estive como engenheiro projetista na P&V Consultoria e Projetos de Engenharia, onde permaneci até 2004. Neste período acumulei colaborações como docente do ensino superior no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro do Instituto Politécnico de Setúbal (ESTBarreiro/IPS). Iniciei a minha atividade na ESTBarreiro /IPS em 2001, tendo abraçado este projeto de forma exclusiva a partir de 2004. Até à eleição para Diretor, em 2014, fui membro de vários órgãos de gestão, como por exemplo na Assem- bleia Estatutária, no Conselho Científico, no Conselho Pedagógico, no Conselho Técnico-Científico e no Conselho de Representantes, tendo também exercido vários cargos de coordenação, como por exemplo Responsável da Área Científica de Mecânica e Estruturas, Coordenador de Curso da licenciatura em Engenharia Civil e Responsável do Gabinete de Inserção na Vida Ativa. Neste percurso desempenhei também funções de docência, pertenci ou colaborei, sempre que solicitado, com organizações da comu- nidade local, desenvolvi atividades de investigação e de prestação de serviços e concluí o doutoramento em Engenharia Civil. No desempenho das várias funções e dos vários cargos, alguns dos quais a liderar equipas, sempre procurei, de uma forma competente, empenhada e dedicada, com grande pluralidade e sentido de responsabilidade, a melhor solução para servir o propósito da ESTBarreiro/IPS e do Instituto Politécnico de Setúbal.

(DO):No próximo dia 25 de Julho perfaz dois anos de mandato à frente da ESTBarreiro/IPS, qual o balanço que faz?

(PF): O contexto inicial deste mandato foi totalmente diferente de outros que o antecederam, fruto de um período muito difícil para Portugal e para os portugueses, sendo que também as instituições de ensino superior estiveram confrontadas com tempos de crise e de austeridade. No entanto, nestes quase dois anos e com o mundo e o país em permanente e acelerada mudança, a ESTBarreiro/IPS tem orgulho em acompanhar esse ritmo, tentando interpretar a mudança e adaptando-se constantemente, sendo que conseguiu reformular a sua oferta formativa, reforçar e alargar a sua relação com a comunidade envolvente e otimizar a eficácia de serviços e de processos. Em termos da sua oferta formativa saliento a aprovação de quatros novos cursos de Técnico Superior Profissional: Acompanhamento e Condução de Obras, Reabilitação Energética e Conservação de Edifícios, Tecnologias de Laboratório Químico e Biológico e Topografia e Sistemas de Informação Geográfica. Este tipo de formação veio substituir os cursos de Especialização Tecnológica nos Institutos Politécnicos. Também a aprovação de dois cursos de licenciatura: Tecnologias do Petróleo e Bioinformática, sendo que este último aguarda a decisão final após uma decisão preliminar positiva. Assim como, a aprovação de um curso de mestrado: Engenharia Biológica e Química. Com os cursos de licencia- tura em Engenharia Civil e em Bio- tecnologia e os cursos de mestrado em Engenharia Civil e em Conservação e Reabilitação do Edificado, a ESTBarreiro/IPS tem duas fileiras de formação académica superior defini- das nas áreas da Construção Civil e Engenharia Civil e da Engenharia Química e Biológica, não descurando outras áreas com possibilidade de afinidade a estas como são os exem- plos da Bioinformática e dos Sistemas de Informação Geográfica. As ações e o relacionamento com a comunidade envolvente também devem ser relevados pois, neste âmbito, foi possível reforçar o desen- volvimento e a intervenção com as empresas e organizações do meio envolvente, apoiar e participar na organização de eventos técnico – científicos e empresariais nas instalações da ESTBarreiro/IPS, apoiar e participar em iniciativas desenvolvidas pela comunidade envolvente ao nível da educação, saúde e inclusão social e participar, de uma forma ativa, nos fóruns de definição da estratégia regional de desenvolvimento. Finalmente adiciono um dado de grande relevância e importância, principalmente quando enquadrada com a conjuntura económica que o país, as suas instituições e as pessoas vivem, neste período a ESTBarreiro/IPS apresentou sempre um saldo final positivo nas suas contas, garantido assim a sua sustentabilidade.

(DO):A ESTBarreiro/IPS já foi distinguida como sendo uma das instituições de ensino que mereceu reconhecimento ao nível mundial como uma referência no ensino/aprendizagem, pode afirmar-se, que além de projecção nacional, também já existe uma projecção além-fronteiras? De que forma é que este reconhecimento se reflecte na entrada de alunos estrangeiros na vossa escola?

(PF): A ESTBarreiro/IPS não está apenas preocupada com a inovação, investigação e desenvolvimento nas suas áreas científicas de maior inter- venção, também tem uma grande preo- cupação com o melhoramento e a inovação que sejam possíveis de aplicar e introduzir no seu processo de ensino/aprendizagem. Nesse âmbito tem alguns dos seus docentes, dedicados à investigação e desenvol- vimento nesta temática, sendo investigadores com alto valor de reconhecimento pelos seus pares. A entrada de estudantes estrangeiros nas instituições de ensino superior portuguesas, nomeadamente na área das engenharias e tecnologias, é um tema recente e com grandes possibilidades de crescimento nos próximos anos. Não centrando a questão nos estudantes de mobilidade, na ESTBarreiro/IPS, e também na maioria das outras instituições congéneres, a entrada de estudantes estrangeiros tem sido, na sua maioria, oriunda dos países de língua oficial portuguesa, sendo que existe um esforço na ESTBarreiro/IPS e no Instituto Politécnico de Setúbal para alargar esse contingente a estudantes oriundos de outros países. É evidente que todos os trabalhos de reconhecido mérito desenvolvidos por docentes da ESTBarreiro/IPS reforçarão a visibilidade da ESTBarreiro/IPS junto desse público-alvo e contribuem para aumentar o número desse tipo de estudantes.

(DO): Foi recentemente inaugurado o pólo da IPStartUP (Incubadora de ideias de negócio do IPS), como tem sido a receptividade por parte do meio académico e qual a avaliação que faz destes primeiros meses de “vida”?

(PF): A recetividade tem sido muito positiva, tanto da parte do meio académico como da parte da comunidade envolvente, donde têm surgido várias possibilidades de negócio. Neste momento, está incubada uma ideia de negócio na área da construção e reabilitação nos espaços da IPStartUP no campus do Barreiro, sendo que essa ideia surgiu de dois estudantes dos cursos de mestrado, em Reabilitação e Conservação do Edificado e em Engenharia Civil. Esta conjugação de dois saberes realça o grande capital humano que existe e sinergias possíveis de desenvolver nas áreas de atua- ção da ESTBarreiro/IPS.

(DO): Qual a relação que tem tido com as autarquias mais próximas, nomeadamente a do Barreiro, Moita, Montijo no que diz respeito ao criar de sinergias que possam resultar na inserção dos vossos alunos no mercado de trabalho ou na criação do seu próprio negócio/posto de trabalho?

(PF): Tem sido uma relação de grande importância e fundamental para o desenvolvimento da Missão da ESTBarreiro/IPS. As autarquias locais têm sido parceiros e colaboradores incansáveis e essenciais na procura das melhores soluções que servem os interesses locais e da região, principalmente ao nível da empregabilidade, mas não apenas, poderei destacar outras áreas igualmente importantes como a disponibilidade institucional e a abertura para criar ligações de parceria com outras entidades locais do meio empresarial. Neste processo a ESTBarreiro/IPS também tem sido um parceiro com o qual a região tem contado, por isso esta reciprocidade tem sido uma mais-valia para todos os envolvidos.

(DO): Qual tem sido a evolução do número de entrada de alunos nos últimos anos e quais os cursos mais procurados?

(PF): A ESTBarreiro/IPS, assim como a maioria das instituições congéneres da área das engenharias e tecnologias, sofreu um decréscimo do número de estudantes nos últimos anos. No presente ano letivo conseguimos inverter esse decréscimo, apresentan- do a ESTBarreiro/IPS um número de inscritos próximo dos 500 estudantes, ligeiramente superior ao número de inscritos no ano letivo anterior. Com a consolidação das novas formações aprovadas, é previsível que este número aumente de uma forma gradual e consistente nos próximos anos. Os cursos com mais procura na ESTBarreiro/IPS são os cursos de licenciatura em Biotecnologia e de Técnico Superior Profissional em Tecnologias de Laboratório Químico e Biológico.

(DO): Os Politécnicos ainda são o “parente pobre” do Ensino Superior Público em Portugal ou esse é um cenário que já foi posto de lado?

(PF): O ensino politécnico e o ensino universitário estão orientados para diferentes missões, sendo cada uma dessas muito importantes e necessárias para o país. Sendo o ensino politécnico orientado para a investigação aplicada e de desenvolvimento, dirigido para a compreensão e solução de problemas concretos, proporcionando uma sólida formação técnico-científica, com capacidade de inovação e de análise crítica com vista ao exercício de atividades profissionais, não encontro razão para considerar o ensino politécnico de acordo com o cenário apresentado na questão. Pelo contrário, deverá ser dos siste- mas de ensino superior o mais preparado para resolver alguns dos graves problemas estruturais do país, por isso deverá merecer um foco estratégico de maior relevância do que aquele que tem recebido nos últimos tempos. Outros países desenvolvidos apresentam o mesmo tipo de organização no ensino superior, não existindo esse tipo de estereótipos, sabendo-se exatamente o lugar de cada um, sendo este um tema a reforçar no ensino superior em Portugal.

(DO): Quais as suas ambições para a ESTBarreiro/IPS nos próximos anos?

(PF): Nos próximos anos a ESTBarreiro/IPS tem como ambição consolidar as recentes ofertas formativas aprovadas e dessa forma fazer crescer o número de estudantes inscritos, assim como melhorar os indicadores associados ao sucesso académico. Também pretende afirmar-se como um motor de desenvolvimento da região apostando na investigação, na inovação e no reforço e alargamento das relações com a comunidade envolvente. Uma comunicação reforçada e uma imagem de rigor, de qualidade e de pró atividade serão essenciais para tornar a ESTBarreiro/IPS uma referência e cumprir estes desígnios.

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