Depois de já vos ter abordado neste espaço o que move os jogadores e os treinadores de futebol, hoje trago-vos uma reflexão pessoal sobre os diretores de futebol dos clubes de âmbito regional e nacional.

Para alguns agentes desportivos, os diretores são, efetivamente, o saco de pancada dos clubes, bem como quem acaba por levar, normalmente, com as culpas do insucesso das instituições desportivas. No entanto, eu acredito que, com alguns defeitos, são muitas vezes os diretores os grandes mentores do trabalho que tem sido desenvolvido em prol do futebol.

Antigamente, alguns diretores surgiam no futebol porque amavam a modalidade, no entanto, como não tinham jeito para jogar, encontravam no dirigismo uma forma de estarem integrados na modalidade e de ter algum protagonismo nas instituições, algo que ainda hoje se verifica na grande maioria dos clubes. Outros entraram no dirigismo depois de terem mudado de local de residência, designadamente das aldeias para a cidade, sendo esta uma forma, acessível, de conseguirem alcançar a ambicionada integração. Por último, existiam ainda outro tipo de dirigentes, atualmente praticamente inexistentes – fruto dos tempos e, particularmente, das condições económicas atuais – que eram as pessoas mais abastadas de determinado local que encontrava no futebol uma “janela” para espelhar a sua generosidade e, simultaneamente, captar o respeito e a admiração dos seus pares, habitualmente eram essas pessoas que compravam as primeiras bolas, os primeiros equipamentos e cediam terrenos a partir dos quais nasceram os primeiros campos de jogos.

Com o passar dos anos, chegaram as competições federadas e para participar era necessário ter um campo com as mínimas condições para a prática da modalidade, foi então que começaram a surgir os dirigentes construtores civis de profissão, que pelas costas eram apelidados, com algum desdém, de patos bravos, mas na verdade foi graças a eles que houve uma inequívoca melhoria dos recintos desportivos.

Com o fim da ditadura, surgiu um novo tipo de dirigentes, os que entravam para o associativismo com um objetivo claro em mente: projetarem-se para cargos políticos, designadamente nas Juntas de Freguesia e nas Autarquias. Algo que aconteceu com muita frequência, uma vez que essas pessoas, desde que tivessem feito um trabalho de relevo nas associações, tinham popularidade e garantiam, naturalmente, mais votos.

Atualmente e ao contrário do que muitas pessoas defendem, os dirigentes evoluíram, tornaram-se mais capazes, com mais conhecimentos e, sobretudo, ganharam sensibilidade para entender o futebol e têm feito de tudo, nomeadamente no distrito de Setúbal, para melhorar o futebol, particularmente ao nível das infraestruturas. Basta vermos que, hoje em dia, quase todos os clubes têm campos relvados/ sintéticos.

Com os novos tempos, particularmente com o futebol de formação surgiu a figura do pai/ mãe dirigente, entram no futebol para ajudar os filhos a concretizarem o sonho de ser o futuro Ronaldo, sonho que muitas vezes é mais dos pais do que dos filhos, mas afastam-se quando o período de sonho termina.

E, por último, com as SAD’s surgiu o papel de diretor profissional, ocupado, predominantemente, pelo “filho do amigo” que é licenciado em direito, gestão e/ou marketing e que não tinha emprego, emprego que encontrou no futebol, sem antes ter tido qualquer tipo de ligação, nem mesmo afetiva, com a modalidade. E, ainda o, diretor decorativo, cargo que é assumido, habitualmente, por jogadores com prestigio, amados pelos sócios, mas que na prática não têm praticamente qualquer tipo de poder de decisão no clube que representam.

Assumo que tenho pena que existam tão poucas pessoas a querer enveredar pelo dirigismo, facilmente conseguimos encontrar treinadores principais e adjuntos, alguns que poderiam, inclusivamente, ter-se tornado bons diretores mas que preferem “passar ao lado” de boas carreiras como treinadores. E é, também por isso, que muitos clubes têm acabado com o futebol, não só pela escassez de recursos financeiros mas também pela escassez de recursos humanos, prova disso é que no nosso distrito grande parte dos diretores e dos presidentes são os mesmos há mais de 30 anos.

Depois de uma abordagem aos vários tipos de diretores desportivos, centro-me agora nos dois presidentes de clubes portugueses mais mediáticos da atualidade: Pinto da Costa e Bruno de Carvalho.

Admito que já ouvi várias comparações entre os dois, no entanto, confesso que vejo poucas semelhanças, para além da utilização, sistemática, da ironia provocatória e do facto de tanto Pinto da Costa, no início do seu trajeto enquanto presidente, como Bruno de Carvalho, atualmente, ir para o banco de suplentes nos dias de jogo. Mas no fundo, considero que, na grande maioria dos casos, Bruno de Carvalho é, na verdade, um mau imitador do homem do norte.

Pinto da Costa chegou a presidente depois de um longo percurso nas modalidades amadoras e, mais tarde, como chefe do Departamento de Futebol, altura em que conheceu Pedroto, aquele que é para mim, sem dúvida, o melhor treinador português antes de Mourinho e que foi o verdadeiro mestre de Pinto da Costa.

Naquela época, muitos jogadores treinados por Pedroto tentaram, posteriormente, afirmar-se como treinadores utilizando o facto de terem sido treinados por ele como cartão-de-visita. Contudo, o grande seguidor de Pedroto foi Pinto da Costa. Como presidente do FC Porto, começou, rapidamente, a afrontar o poder dos grandes de Lisboa.

Recorde-se que, naquele tempo, os presidentes da Federação Portuguesa de Futebol, eram eleitos à vez pelo Benfica, Sporting e Belenenses. Contudo, o ainda presidente do Porto, aliado à Associação de Futebol do Porto, dominou, primeiro, o conselho de arbitragem, mais tarde, o conselho de disciplina e, posteriormente conseguiu colocar pessoas em todos os órgãos chave do poder desportivo e político, consequentemente, surgiram as primeiras alianças com vários clubes do norte e do sul e com tudo isto conseguiu tornar-se um homem temido pelo poder político. Tirando proveito das conjeturas políticas da altura, Pinto da Costa tornou o FCP na bandeira do combate do norte contra o sul do país e conseguiu o apoio de muitos empresários nortenhos que o ajudaram a disputar com o Benfica os melhores jogadores daquele tempo.

Não tardou muito para os resultados positivos começarem a surgir em força, resultados que transformaram um clube que até então tinha medo de atravessar a ponte rumo ao sul na máquina desportiva mais competitiva e mais ganhadora do pós-revolução e que dura há mais de 30 anos.

Bruno de Carvalho, pelo contrário, chegou ao Sporting sem nunca ter passado pelo futebol, contudo com um discurso, maioritariamente, populista, conseguiu injetar esperança num clube que estava a viver um dos períodos mais negros da sua história, quer a nível desportivo, quer a nível financeiro.

Conseguiu, com um treinador sereno e competente, a entrada na Champions, financeiramente conseguiu renegociar a dívida com a banca, mas pelo meio travou, num curto espaço de tempo, várias guerras com muitos danos colaterais, difíceis de sarar, quer a nível interno quando entrou em conflito com muitas figuras do clube, designadamente antigos diretores e jogadores, quer a nível externo. Desde que chegou à presidência Bruno de Carvalho já entrou em guerra com todas as instâncias do poder desportivo, com a Federação, com a Liga de Clubes e, também, com vários clubes. Por isso, é por culpa própria que está só e não tem representação nos órgãos de decisão.

Por tudo isto, considero que o Pinto da Costa vai ficar para sempre na história como o melhor dirigente português de todos os tempos. Já Bruno de Carvalho, está de passagem pelo futebol e, acredito, que daqui a meia dúzia de anos já ninguém se lembra dele.

Amândio Jesus
Diretor Desportivo