Para quem dentro de um azar, tem sorte, tem ainda de esperar ter sorte nessa sorte. Parece abstracto, mas não é: é mesmo a situação muito concreta de neste contexto que atravessa o mundo ser infectado pelo Covid-19, ainda que por sorte de uma forma ligeira; ter depois cura clínica, e regressar ao trabalho, e à relação com as pessoas (sempre com máscara e todos os outros cuidados); e aí acontecer não ser discriminado. 

É preciso sorte, porque isso não depende da pessoa que passa por isso, mas de com quem ela se relaciona. Acho que toda a gente fica com algum receio, porque apesar de tudo estamos a falar de uma doença contagiosa, e de que ainda não se sabe muito. Mas no entanto há pessoas que ficam só com receio, e conseguem perceber que com a cura clínica, mais os comportamentos de protecção e higiene, o risco de transmissibilidade é praticamente inexistente; e outras pessoas que, podendo embora também saber isso, no entanto agem, ou têm atitudes que parecem ignorá-lo. 

Usar máscara, e manter a distância física é importante não só face a quem se sabe ter sido infectado e já teve alta, como face a qualquer pessoa, que não se sabe se está ou não infectada. É a falha, ou o descuido com essas medidas que potencía o contágio; e elas existem para que as pessoas possam prosseguir as suas vidas, não como se a pandemia não existisse, mas também não como se essas próprias medidas não existissem. 

Devia bastar às pessoas que passam por essa situação o passar por ela, e não terem ainda que ao regressar à sua vida profissional ou social, lidar com atitudes discriminatórias, que podem ser mais ou menos evidentes – às vezes um olhar, às vezes um comentário, um gesto… – mas que magoam, e acrescentam ao sofrimento já vivido ainda mais sofrimento. 

Mas talvez esta não seja a melhor altura para pensar nisto, porque a situação em que vivemos ainda é muito difícil, e é natural que as atenções se virem para coisas mais prementes; e também, se tudo correr bem, dentro de pouco tempo teremos aí uma vacina, e então é que não vai ser mesmo necessário pensar nisto. Ou seja, provavelmente nunca se vai pensar nisto; e isso até seria bom, se também nunca mais tivéssemos de viver situações de receio e de discriminação nas relações de uns com os outros. 

João Gonçalves