A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos ocupa sempre mentes e corações de 18 a 25 de janeiro, embora tenha de ser ocupação e preocupação para as 52 semanas que o ano tem.

O Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos (entidade católica) e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial das Igrejas (que congrega Igrejas Protestantes e Ortodoxas) preparam sempre um Guião comum para que os cristãos do mundo inteiro vivam esta semana com intensidade e profundidade. 

O tema foi escolhido e preparado pelas Igrejas Cristãs em Malta e Gozo, Ilhas que receberam o Evangelho anunciado por Paulo, em circunstâncias muito difíceis, após naufrágio. O texto bíblico inspirador é tirado do livro dos Actos dos Apóstolos (27, 18-28), texto que narra o referido naufrágio quando o Apóstolo ia a caminho de Roma para se defender da condenação à morte junto das estâncias judiciais do império romano. ‘Demonstraram uma benevolência fora do comum’ é a frase que se transformou em título e em desafio para esta Semana da Unidade.

O Mar Mediterrâneo, tal como há dois mil anos, é palco de muitos naufrágios, sobretudo de pessoas que tentam a todo o custo chegar à Europa como migrantes. E, nada melhor que estes textos bíblicos para fazer rezar e reflectir os cristãos todos (e todas as pessoas de boa vontade) acerca destas crises da migração e da urgência de um acolhimento hospitaleiro a quantos nos batem à porta.

Hoje, lembra este texto ecuménico, ‘muitas pessoas estão a enfrentar terrores semelhantes – ao de Paulo – nesses mesmos mares. Os lugares mencionados no texto também fazem parte das histórias de migrantes dos tempos modernos’.

Rezar pela Unidade dos Cristãos implica compromissos evangélicos comuns. Os Cristãos de Malta e Gozo sugerem que se combatam as redes de tráfico humano que enganam, roubam e, muitas vezes, condenam à morte os pobres migrantes que são postos em barcos sobrelotados e sem quaisquer condições para atravessar o Mar. E, para os europeus, vai também um apelo a ultrapassar faltas de humanidade quanto ao acolhimento dado a quem chega. É condenada neste texto ‘a indiferença que leva á decisão de não enviar barcos de socorro, a indiferença que faz mandar embora barcos de imigrantes’. Por isso, o Mediterrâneo se transformou num dos maiores e mais bárbaros cemitérios da Europa, onde estão sepultados mortos que ninguém chorou, pois os familiares não souberam destas mortes trágicas.

O P. Eduardo Ferreira, responsável pelo Centro Espírito Santo e Missão (CESM), em Silva-Barcelos, escreveu no jornal Ação Missionária que construir unidade é missão. E, após falar da urgência da hospitalidade, insistiu muito na comunhão no essencial e no diálogo como caminhos ecuménicos de excelência. Escreveu: ‘Mais do que com discussões doutrinais ou teológicas, a construção da unidade dos cristãos ‘para que todos sejam um’ há-de fazer-se em volta de valores que nos impulsionaram para o essencial. Paulo anunciou: chegou uma nova realidade que faz ultrapassar todas as barreiras entre as pessoas e as une a todas. Já não importa se alguém é judeu ou pagão, homem ou mulher, rico ou pobre, escravo ou livre: em Cristo somos uma nova criação’. E, sobre o diálogo, acrescenta: ‘todas as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a oração em comum e, em comum, a dar respostas criativas à luz do Evangelho’. Conclui: ‘nas viagens tempestuosas e encontros casuais do diálogo ecuménico, a vontade de Deus para a Igreja e para todas as pessoas será cumprida. Como Paulo proclamará em Roma, a salvação foi enviada a todos os povos’.

Pe. Tony Neves, em Roma

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