Como comprar menos é viver mais e melhor.

Bem-vindos à sociedade do consumo. Queremos em demasia, desde o que não precisamos às fúteis bugigangas, alimentando os mercados. Estes são os valores da comunidade que construímos, mas não tem de ser assim.

Se na realidade as coisas nos fazem felizes, também é verdade que nos absorvem tempo, finanças e sanidade mental. Diz o Budismo que “a origem da dor é o desejo”, não sejamos radicais ao ponto de não termos ambições saudáveis e sonhos, mas pensemos na frase. Adquirimos, usamos, e depois armazenamos ou descartamos, e perpetua-se o ciclo vicioso. Seremos felizes assim? A realização das nossas comodidades é uma ameaça à verdadeira felicidade e à liberdade espiritual. A alegria desaparece ao nos habituarmos aos novos pertences. Moderação é chave, e devemos aplicá-la às nossas expectativas nas várias etapas da vida.

Cortamos pedaços da nossa vida para acumular pedaços de utensílios. Somos bombardeados com promoções e ofertas, roubando-nos não só a atenção, mas também o que nos custou a ganhar. É pena que isto se repita desde os tempos de Charlie Chaplin, no famoso discurso do filme – O grande Ditador, de 1940, relembrando que nos pediam para não sermos máquinas do sistema e gado desatento. Mais que coisas, as pessoas também já são de plástico. 

É incrédula a abundância de petrechos para cada tarefa específica, visível numa cozinha equipada de alto a baixo ou na diversidade de produtos de higiene pessoal. Só temos dois sovacos, mas acumulamos desodorizantes porque estavam em desconto. Na garagem já não cabe o carro, para se guardar os 40 jogos de lençóis, uns quilos de atoalhados e gerações de frigoríficos. Ultrapassámos ainda a barreira de impulsos naturais para acalmar apetites. Encher o estômago até doer em buffets é um dano colateral da evolução da sociedade materialista.

Vemos as heranças a serem deitadas no lixo ou vendidas na feira da ladra. Vivemos para adquirir as novas versões sem pensar no que já temos. Os resíduos produzidos enchem o balde e ecopontos em menos de nada. A alternativa? Menos pertences, preocupações e comparações com vidas alheias. Sair dos centros comerciais e entrar numa realidade rica em história, cultura e natureza, que está já ali, ao virar da esquina.

Não haverá quebras no mercado, pois ao se diminuir nas compras estamos a transformar a maneira como fazemos comércio e não a diminuir empregos ou oportunidades. Este seria o patamar alternativo ideal: 

  • Escolher mais produtos naturais e menos processadas; diminuindo a pressão na indústria e melhorando a nossa saúde;
  • Tratar bem e reutilizar materiais que ainda cumprem o seu propósito, prolongado o seu uso;
  • Ver e orçamentar as várias opções de mercado disponíveis, deixando uns trocos na carteira;
  • Apostar na qualidade e não quantidade – duas t-shirts boas duram mais tempo do que quatro frouxas;
  • Apreciar o que já temos e conquistámos, tratando-se dum sentimento duradouro;
  • Conhecer plataformas de compra/venda, troca ou doação de bens, também para o benefício de outros que precisam.

Fiquem fartos de ser cata-ventos do consumismo e que vos digam o que, quando e onde comprar. Viver com menos é um alívio, há menos para arrumar, limpar, e tomar decisões chatas. Ao retirar excessos, percebemos melhor quem somos, o que queremos e criamos mais memórias com os que amamos. Poupemos tempo e dinheiro para investir em formação interior; melhoremos enquanto pessoas e deixemos aos nossos filhos menos peças descartáveis e mobília devoluta, mas mais amor; apostando num sistema educativo com base sustentável e num futuro melhor para todos. Eu já estou a viver mais, e vocês?

Mauro Hilário

mauro_lwt@hotmail.com

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