Sou contra a eutanásia em qualquer que seja o caso, a vida humana é inviolável e a constituição no artigo 24 não deixa margens para dúvidas. Apesar de entender a enorme sensibilidade que um tema destes tem na sociedade, assim como os motivos que levam alguém a pensar nela, o desespero, o medo, o sofrimento, mas acima de tudo, a solidão.

Um dos argumentos clichés neste tema é a procura por uma morte digna. Mas sejamos honestos, existirá alguma morte natural que não seja digna? Não se pode considerar um direito determinar o momento da nossa morte consoante as dificuldades da nossa vida, porque apesar de estarmos a considerar um assunto de uma sensibilidade enorme, em quantos momentos não pensámos em desistir de tudo e partir? No entanto, acabamos sempre por encontrar motivos que fazem realmente valer a pena viver. Aliás, o primeiro facto que sabemos sobre a pessoa é que a morte é inevitável e ao qual ninguém consegue fugir, pois a própria Natureza encarrega-se dela. Será por isso a nossa vida algo que pertence apenas a nós próprios e que possamos fazer dela o que quisermos? Em que lugar ficam as pessoas que nos amam? Até que ponto não poderemos encarar a Eutanásia como um ato egoísta?

Não deixa de ser curioso que este tema vem a debate numa sociedade e numa época que cada vez mais desvaloriza os mais frágeis e os que não se podem defender, em que os mais velhos são muitas vezes deixados para morrer nas suas casas, ou em camas de hospitais completamente sozinhos, e para agravar, são ainda muitas vezes confrontados com reformas miseráveis após uma vida inteira de trabalho. Será possível existir maior sofrimento que a solidão ou o abandono? Será aceitável compactuarmos com a Eutanásia porque existe pessoas que não tem à sua volta ninguém para abraçar, rir ou chorar? Ao aceitarmos isto de animo leve o que fará de nós enquanto seres humanos? Ora isto sendo em que época for é grave, mas especialmente no século XXI é absolutamente escandaloso, negligente e criminoso. No tempo dos meus avós envelhecer era uma arte e os seus avós eram vistos como sábios e exemplo a serem seguidos, mas hoje em dia são considerados meros fardos para uma sociedade que por razões de espaço, comodidade e egoísmo decidiu não guardar qualquer lugar para os mais idosos e necessitados. E esta é a grande mentira da Eutanásia pois pretende acabar com o sofrimento de uma pessoa, e com isso vai mais longe destruindo a sua própria vida, resultando num ato de suicídio. Mas mais grave que isto, é que a culpa de alguém estar neste desespero atroz é nossa e na falta de capacidade que temos de ajudar o próximo. Sobre um pseudo sentimentalismo e uma falsa moral somos levados a aceitar a eutanásia pensando que estamos a ser bons e justos para com o doente, por já não haver qualquer esperança ou solução, mas estamos errados porque a possibilidade da eutanásia abre-se porque a sociedade não se preocupa de uma forma séria e consciente com os doentes e os mais frágeis. Perante esta realidade, só vejo dois caminhos possíveis, ou aceitamos a Eutanásia hoje mesmo e continuamos com as políticas deste século que atentam contra a dignidade da vida humana, ou por outro lado, pensamos em soluções reais para proporcionar as melhores condições a quem diariamente sofre pelas mais variadas razões e isto passa naturalmente por um investimento financeiro mas principalmente por um investimento do nosso tempo, da nossa vida e do nosso bem-estar. O desafio é este, Portugal.

José Maria Matias

 

Partilhe esta notícia