Em 1954, Marlon Brando encantava o mundo com a sua fabulosa prestação no filme “Há lodo no Cais” que expunha a vil exploração dos estivadores no porto de Nova Iorque. Situação em tudo idêntica à dos estivadores do porto de Setúbal em 2018.

Aqui não houve homicídios nem paixões cinematográficas, não temos o Marlon Brando e por isso ninguém fará um filme nem ganhará óscares. Aqui a luta é feita por homens e mulheres que, abdicando do seu vencimento, decidiram que não abdicariam da sua dignidade.

Os precários do porto de Setúbal não são precários como os outros. Não estamos a falar de pessoas com contratos de 3 ou 6 meses que vão para casa depois de 2 anos a trabalhar para não serem passados a efetivos. Estamos a falar de pessoas que recebem SMS a contratá-los e entre SMS estão desempregados. Imagine o leitor, que está aqui sentado a ler este artigo, que recebia um SMS a dizer “está colocado amanhã no 1º turno”. Então o leitor organizava a sua vida para poder entrar as 8 da manhã: pedia à esposa que levasse ela os miúdos à escola, combinava que depois os ia lá buscar e apresentava-se ao serviço. Recebia então outro SMS “está colocado amanhã no 2º turno”. Já não pode ir buscar os miúdos, afinal vai trabalhar não 8h mas 16h em turnos de 9h com uma pausa de 1h para comer. Vai sair de casa antes de os filhos acordarem e voltar quando já estiverem a dormir. Vai passar 18h no cais e das 6h que sobram do seu dia ainda vai ter de descontar a deslocação para o cais, o banho, comer qualquer coisa e, com sorte, dorme umas 4 horitas. Mas, entretanto, já recebeu outros dois SMS e amanhã será igual. E depois de amanhã. E todos os dias ou quase todos durante anos. Há estivadores com 59 turnos feitos num mês de 30 dias. O trabalhador médio faz 20 turnos num mês. Mas se recusarem o segundo turno não voltam a ser chamados, portanto aceitam. No final de cada turno o contrato cessa e não há qualquer vínculo laboral que os proteja. Se o patrão não quer, não chama e eles não trabalham e não ganham.

Também não são garganeiros que aguentam esta vida para ganhar balúrdios. Ganham menos de 50€ por turno, o equivalente a um ordenado de menos de 1000€ trabalhando as horas que que qualquer trabalhador assalariado trabalha. Quando trazem um bom ordenado para casa é sinal de que trabalharam mais do que o devido com todos os custos pessoais e familiares que isso implica. Férias? Não há. Ver a festa de Natal do filho ou celebrar o aniversário com a mulher? Não pode. 

Depois de mais de 20 anos assim estes trabalhadores decidiram que não trabalhavam até que lhes fosse restituída a dignidade e proposto um contrato coletivo de trabalho a todos aqueles que todos os dias são chamados portanto, todos os dias são necessários. Não a meia dúzia, não a 30 mas a todos. Não estão dispostos a que fiquem colegas para trás. Estão unidos.

E quando pararam, estes trabalhadores que não fazia falta contratar, o porto entupiu, a indústria desesperou e todo o país estremeceu. Afinal são cruciais à economia. 

Portanto antes de os acusarem de querer mal à economia do país, de serem egoístas ou inconsequentes pensem que há 20 anos que temos vivido e gerado riqueza neste país à custa destas pessoas. Apoiem-nos, orgulhem-se deles porque hoje são eles, amanhã poderemos ser nós ou os nossos filhos. Não queremos essa vida para os nossos e portanto não a podemos querer para eles e por isso temos de apoiar quem, 64 anos depois, também não acabar com o lodo no cais.

 

Vanessa Sequeira

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