Se nos focarmos no desenvolvimento tecnológico ocorrido nos últimos anos,  constatamos, que a maioria das funções/tarefas que realizamos atualmente,  implicavam, há 20 anos atrás, um maior “esforço” e dispêndio  de tempo da nossa parte, estando hoje muito mais simplificadas, e nalguns casos, ao simples  toque de um “click”. 

Realizar uma operação bancária, marcar um hotel ou viagem, falar com um familiar a 1000 km de distancia, são exemplos de situações que conseguimos realizar em segundos ou minutos, recorrendo às novas tecnologias, como sejam o telemóvel, o email, o sms, as redes sociais, o whatsApp, a rede multibanco , entre outros.

Esta nova realidade, deveria abrir “caminho” para passarmos a ter  uma vida mais calma e tranquila, com mais tempo para a família, para os amigos, para  a prática de hobbies e até para a realização das tarefas de âmbito profissional. Acontece que se analisarmos a nossa envolvente, verificamos precisamente o contrário. Cada vez é mais comum ouvirmos dizer: “Não tenho tempo para….”, “Não consigo cumprir com as minhas tarefas profissionais no tempo que me exigem.”Como se explicam então estes factos?

Comparativamente com o passado, existe hoje uma menor tolerância relativamente aos prazos para cumprir uma determinada tarefa ou função. Não é hoje admissível pela generalidade das pessoas ou empresas, que um indivíduo não responda de imediato a uma mensagem enviada por um amigo via sms, a um email de um cliente, ou até a um telefonema de um familiar. Esta exigência, acaba por ter repercussões negativas no quotidiano de TODOS nós, na medida, em que parecendo um contrassenso, conseguimos fazer as coisas mais “rapidamente”, mas também é-nos exigido, fazermos mais coisas em menos tempo, ora tudo isto acaba por gerar mais “stress” e ansiedade”.

Face às exigências que nos são colocadas diariamente tanto a nível pessoal, como profissional, torna-se imperativo, que cada um de nós utilize as novas tecnologias, com tudo aquilo de bom que nos podem oferecer, mas adotando medidas de “defesa” para não ficarmos “reféns” das mesmas. 

É normal observarmos que uma criança de 4 a 5 anos, manifesta  maior destreza e habilidade para lidar com as novas tecnologias do que um indivíduo de 50 ou 60 anos, na medida em que os primeiros já nasceram  com a tecnologia a fazer parte da sua vida, enquanto que os segundos tiveram de se adaptar gradualmente à sua utilização. É também cada vez mais frequente, verificarmos que a dependência destas tecnologias é uma realidade, sendo mais patente nas novas gerações, mas abrangendo  também, indivíduos de faixas etárias mais elevadas (30, 40, 50 anos, ou até mais).

Decorrente de estudos realizados inicialmente no Reino Unido, mas alargados a nível mundial, foi identificado um novo distúrbio de âmbito psicológico, designado de nomofobia (uma abreviatura do termo inglês, “no-mobile”, que significa sem telemóvel), e que acaba por ser a fobia, medo ou desconforto com a privação de não  poder comunicar durante um período de tempo (segundos, minutos, horas, dias,..) através da realidade virtual ou do smartphone.

Quando estão sem acesso ao seu smartphone, às redes sociais, à possibilidade de jogar na realidade virtual, os indivíduos que sofrem de nomofobia podem apresentar sintomas físicos (falta de ar, suores, cefaleias, tonturas, tremores, dores no peito, ritmo cardiaco elevado) e sintomas de natureza psicológica/emocional (irritabilidade, mudanças de humor, angústia, medo, ataques de pânico, depressão, sintomas de solidão). 

Em termos de comportamento, os indivíduos que sofrem de nomofobia, podem manifestar:

– Dificuldade em desligar o telemóvel, nem que seja por segundos;
– Não conseguir deixar de consultar de modo compulsivo, emails, sms, redes sociais;
– Controlar constantemente a carga da bateria do telemóvel ou de outro equipamento, com medo de perder a ligação ao mundo virtual;
– Sentir ansiedade/stress em locais onde não tenha rede ou onde não seja permitido ter equipamentos eletrónicos ligados (por exemplo no caso de uma viagem de avião);
– Não fazer exercício físico, não estar com a família ou com os amigos para estar ligado à realidade virtual;
– Passar muito tempo no smartphone, na internet ou a jogar via “on line”, pondo em causa a realização das refeições ou até mesmo as horas de sono;
– Colocar em causa o seu desempenho profissional pela necessidade de estar “ligado” constantemente à realidade virtual.

Há semelhança de qualquer perturbação de natureza psicológica, o diagnóstico da nomofobia, deverá ser efetuado por um profissional habilitado para o fazer – Psicólogo ou Psiquiatra.

Dadas as exigências do mundo de hoje, cada vez mais competitivo, e onde cada vez mais a relação pessoal (face to face) é colocada em segundo plano, dando-se primazia ao relacionamento “à distância” proporcionado pelas evoluções tecnológicas (que vão continuar a ocorrer no futuro) é necessário que pais, educadores, professores estejam cada vez mais atentos aqueles que de si dependem, de modo a identificar determinados comportamentos que possam indiciar a necessidade de acompanhamento por parte de um técnico especializado.

A tecnologia pode ser um precioso “auxiliar” da nossa vida, temos é de saber aproveitar de forma positiva, aquilo que a mesma nos oferece! 

José Vaz Quintino
Psicólogo – Diretor Geral da Psicohelp
Partner do Uneeq Consulting Group
Docente Universitário

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