Numa nota recente para os clientes, os economistas do Citigroup abordavam os potenciais resultados de uma vitória do “Não” no referendo do próximo domingo, e se a saída do euro era mesmo um facto real. Defendiam na nota, que o pior mesmo, era o marasmo, o período de incerteza que medeia a aceitação do resultado e a mais que provável saída do euro. A esta permanência da Grécia num limbo, à boa maneira anglófona designaram de “Grimbo” e segundo esta equipa pode ter efeitos tão nefastos como a eventual saída da Grécia do euro, e tanto mais quanto se prolongar no tempo.

Todo o processo verificado nesta semana tem ganho contornos extremos, com muita informação contraditória e que tem vindo a confundir a opinião, e este até é um cenário que apenas é explicável, pelo facto de ser altamente influenciado pela dimensão política, que depois influencia a dimensão económico financeira. Contudo, importa compreender alguns destes factos para além do que é o jogo de xadrez político para entender o que se vai passar com este referendo, e quais as consequências em função de cada resultado vencedor. Assim, abordo neste texto algumas evidencias para reflexão atenta:

O Referendo é sobre o euro.

Um das principais referências em termos de contra informação está associado ao significado do referendo que Alex Tsipras e o governo grego convocaram para o próximo domingo, dia 5 de julho. Apesar das declarações de que mesmo não constitui qualquer espécie de plebiscito sobre a permanência do País no euro, a realidade dos factos mostra que este é um referendo sobre o euro, sobretudo se tivermos em consideração toda a extensão do impacte que poderá ter sobre o futuro da Grécia.

Nada mais errado diria eu, e apenas se pode entender esta declaração dado que estamos neste momento a passar por um momento decisivo para o futuro deste governo liderado por Tsipras e pelo Syriza, e porque se olharmos para o conjunto das sondagens que foram sendo divulgadas, esta é a melhor abordagem para que não exista uma votação maciça no sim. Ainda assim, somando a confusa diatribe negocial verificada no princípio da semana, não fica clara a agenda real sobre os interesses de Tsipras e sobre o que fará na manhã seguinte ao resultado.

As sondagens enviam sinais que indiciam vitória do “Sim” ao acordo proposto:

Ao momento que escrevo este artigo das sondagens que já foram divulgadas, três dão uma vitória no “sim”, sendo que apenas uma dava uma vitória ao “Não” – 46% contra 37%, mas curiosamente esta leitura desta casa de sondagens mostrou uma quebra acentuada dos apoiantes do “não” (de 57% para 46%) e uma subida declarada do “sim” (de 30% para 37%), depois de ter sido introduzido o controlo de capitais. Já a ultima sondagem publicada pela empresa GPO, 47% votaria sim, e 43,2% votará não. Mas o dado mais interessante e mais curioso desta sondagem (conduzida no dia 30 Junho), é o facto de 74% dos que foram inquiridos terem afirmado que a Grécia deveria manter-se na Zona Euro, custe o que custar. Esta evidência ajuda a suportar que nos próximos dias, é provável que ganhe maior perceção sobre o real significado do referendo do próximo domingo, e quanto a mim é bem provável que o “sim” ganhe maior ímpeto e vença. Contudo, tudo dependerá do que for sendo divulgado durante a campanha, sobretudo do que for saindo em termos de comunicados por parte do referendo e também do nível de estabilização social que se for registando nas ruas.

Importa dizer, que claramente está na calha numa das duas dimensões em que este tema se joga (1. Politica e 2. Económica) um período de grande bipolarização política (o Syrisa apoia o “Não”, em conjunto com os Comunistas do KKE, dos nacionalistas gregos independentes e do Aurora Dourada, enquanto que o “Sim” é apoiado pelo ND , pelo PASOK e pelo novo partido do To Potami,que está agora a emergir nas sondagens como terceira força) que pode ter consequências no dia seguinte.

O Dia Seguinte

O primeiro-ministro Varoufakis garantia na imprensa internacional que na próxima segunda-feira, será reposta a normalidade no dia a dia, pondo fim aos controlos de capital. Acho pouco provável que aconteça, mesmo que vença o “sim” no referendo. Chipre teve uma situação mais controlável que a Grécia (com menores tensões sociais, e com programa de intervenção apoiado pelas instituições internacionais), e ainda hoje têm mecanismos de controlo ativos. No meu entender, a única certeza depois do referendo é que existirá bastante incerteza quer no domínio político, quer no domínio económico/financeiro.

Contudo, como é obvio, para cada resultado, existirão repercussões de diferente dimensão. Ou seja:

  1. Se vencer o “Sim”.

Dimensão política: Uma remodelação, no mínimo, será o espectável dentro do governo. Julgo que poderão existir eleições antecipadas, onde a bipolarização pode acontecer com, coligações Pro Euro e Anti Euro, ou talvez um governo de unidade nacional. Até o cenário do Syriza ficar a liderar pode ser uma solução, embora muito pouco provável, pelo que temos visto de Alex Tsipras e respetiva campanha pelo “não”. O debate político poderá ter um novo enfoque, Europa, em vez de estar na austeridade. Isto pode trazer ímpeto aos partidos mais moderados PASOK e ND, com To Potami a surgir como a nova surpresa anti sistema tradicional.

Dimensão Económica: O voto no “sim”, sobretudo se por larga maioria, confere um mandato forte para levar a cabo um programa de intervenção externa apoiado pela Europa. Os mecanismos de controlo de capital, julgo que se manteriam ainda por algum tempo mais, numa situação mais aproximado ou mais semelhante ao que vimos no Chipre.

  1. Se vencer o “Não”.

Dimensão política: O mandato irá conferir força politica e legitimidade ao Syrisa para extremar as negociações ainda mais com a EU. Na prática poderemos estar estar perante um cenário de levada incerteza que poderá culminar, primeiro numa espécie de Limbo (de que o Citibank hoje falava numa nota a clientes de uma fase que seria o “Grimbo”, marcada por forte estagnação e impasses em negociações – portanto uma continuação do que temos visto até agora – que dificilmente não culminaria no cenário de saída da Grécia do Euro (Grexit), e que em si, pode espoletar de novo uma nova crise política porque na prática os gregos não têm uma convicção forte neste tema. Este cenário de cisão interna politica pode ser mais gravoso, quanto menor for a margem de ganho no “Não” no referendo de domingo.

Dimensão Económica: O voto no “Não” traz uma maior degradação económica, sobretudo enquanto durar a fase de limbo ou “Grimbo” para citar a equipa de economistas do Citi, onde a necessidade de controlo de capitais será mais elevada, assim como as restrições que deverão ser reforçadas. Os bancos estarão sobre forte pressão, e a ausência de um plano de intervenção e resgate suportado por entidades internacionais, leva a que o cenário Grexit seja provável, e aproximado do que verificámos no caso da Argentina. Isto pode significar no final de tudo que existirá de qualquer modo um tipo qualquer de intervenção externa, mas que apenas virá depois de convulsão politica e social, que desague num novo governo. Ou seja no final, haverá sempre um plano de resgate.

Considerações finais: euro com certeza…

Retirada a poeira, o que parece ser muito provável é que o referendo traga um mandato que aprove o custo de permanecer do euro. Certamente o debate não ficará por aqui, e os erros que a Europa tem vindo a cometer no que diz respeito ao formato de intervenção, pagou-se com um sentimento crescente de que “em dias de chuva”, contará cada um por si. Caso a Grécia saia esse não será um custo que a União Europeia deva ignorar, pois significa o falhanço do modelo de origem que resultou nesta União Monetária.

Contudo, o euro ficou, e deverá continuar, assim como o aumento da integração europeia e dos mecanismos que permitirão outro tipo de capacidade para responder aos problemas aos quais não se conseguiu dar resposta nesta ultima crise. A União Bancária foi apenas o primeiro passo, entre outros que, em ritmo mais lento que o desejado, deverão seguir-se. Para um país de pequena dimensão como a Grécia – ou como Portugal – estar no euro é demasiado vantajoso para poder ser ignorado.

 

Ainda no âmbito da dimensão política, não é de excluir que o referendo crie uma possibilidade de reconstrução ideológica dos partidos moderados na Grécia, depois de terem sido dilacerados pelo sentimento anti austeridade. De repente a questão ideológica irá colocar-se entre partidos a favor do projeto do euro e dos que são contra a manutenção do euro. A implementação do acordo, com correspondente austeridade e reformas é o preço a pagar. Provavelmente este referendo vem tarde e não apenas na Grécia.

 

No que diz respeito à dimensão económica e financeira, o mais certo é que se mantenham os mecanismos de controlo de capitais, durante algum tempo, mesmo que vença o “sim”. A crise política que se seguirá a isso obrigará. O agravamento dos mecanismos de controlo de capitais dependerá da forma como for gerido o processo em caso de vitória do “não” – caso não seja implementado qualquer tipo de suporte institucional, contra um programa de reformas, será um cenário bem próximo do que vimos na Argentina.

 

Adicionalmente, importa dizer que me parece virtualmente impossível que no final, e em qualquer cenário, seja possível a Grécia retomar o crescimento sem a implementação de um plano estruturado e apoiado por instituições internacionais que garantam o funcionamento da economia. Ou seja, no final do dia e depois do “não”, do Grimbo e do Grexit , estará provavelmente um programa de austeridade à espera de ser implementado. Provavelmente com condições piores para o Estado e certamente em condições piores para as pessoas.

Luís Tavares Bravo | Economista e Managing Partner da Dif Capital

 

 

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