O Medo de Existir, com texto e encenação de Maria Mascarenhas, estreia a 17 de Maio no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo. O espectáculo é uma co-produção entre a Companhia Mascarenhas-Martins e o Cegada Grupo de Teatro e conta com as interpretações de André Alves, Eurico Lopes, João Jacinto e Pedro Nunes. O Medo de Existir estará em cena até 20 de Maio no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida. Em Novembro o espectáculo será apresentado no Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, em Alverca.

Num futuro distópico, um homem é informado de que existe uma ilha em que a sociedade se organiza de um modo completamente diferente. Decide partilhar esse conhecimento com o mundo, na esperança de conseguir que, num movimento colectivo, a organização hierárquica e tendencialmente autoritária da sociedade seja posta em causa. Em vez de atingir os seus objectivos, é preso. É no calabouço que o encontramos, anos mais tarde, esquecido já pelos seus concidadãos e entregue a um quotidiano em que a única companhia que tem é a das figuras de autoridade que ali o mantêm. Não desiste, porém, de defender a ideia de que a ilha existe, embora a única testemunha que o pode comprovar, Rafael, não tenha até então aparecido.

Depois de ter lido Utopia, de Thomas More, e Portugal Hoje: O Medo de Existir, de José Gil, Maria Mascarenhas relacionou algumas das ideias contidas nestas obras separadas por cinco séculos e escreveu o texto que dá origem ao espectáculo O Medo de Existir (não se tratando, porém, de um trabalho de adaptação). A capacidade humana de imaginar diferentes cenários para a sociedade surge em confronto com a dificuldade em materializar-se qualquer tipo de idealização, numa proposta de reflexão pública em que o teatro assume a sua vertente política, apartidária, livre de qualquer função instrumental.

 

 

O medo enquanto motor da sociedade
Conversa com Maria Mascarenhas
Levi Martins

Maria Mascarenhas leu Utopia, de Thomas More, e Portugal Hoje: O Medo de Existir, de José Gil. Os cinco séculos que separam as duas obras não a impediram de relacionar algumas das ideias que contêm, como por exemplo a capacidade humana de imaginar diferentes regras para a sociedade, ou a dificuldade que existe em passar da imaginação à prática.

Levi Martins: Por que é que andaste a ler a Utopia e Portugal Hoje: O Medo de Existir?

Maria Mascarenhas: Não sei. Acho que há livros que vão ter contigo.

Por estares à procura?

Surgem em conversas, em determinadas discussões, noutros livros. Não me recordo se foi assim que cheguei à Utopia, por exemplo, ou se partiu da minha curiosidade em saber exactamente o que era – uma vez que toda a gente sabe o que é uma utopia mas nem todos leram a obra de Thomas More. Portugal Hoje: O Medo de Existir foi uma sugestão tua, a partir das nossas conversas.

O que é que encontraste nestas duas obras?

A Utopia é um caso curioso, porque à primeira leitura parece uma proposta extraordinária. A primeira vez que lês, como parece quase um romance, não sentes as sugestões do Thomas More de uma forma muito vincada. Fica mais a ideia de um sonho de como as coisas poderiam ser diferentes. Depois lês uma segunda vez, para tentar perceber mais minuciosamente alguns detalhes, e percebes que aquilo não é assim tão bonito como parecia à primeira vista. Depois, quanto mais lês, mais terrível te vai parecendo, porque no fundo aquilo é uma sociedade um bocado…

… condicionada?

Sim. Só existe liberdade até certo ponto. É curioso, por exemplo, como não há grandes referências à arte ou à filosofia. Nada disso parece ter grande importância nessa sociedade imaginada – o que é mais ou menos para onde estamos a caminhar. Mas como na Utopia tudo parece ser muito ordeiro, dá vontade de lá viver. Não há corrupção, não sentes os jogos de poder que hoje em dia tanto se sentem.

E Portugal Hoje: O Medo de Existir?

É daqueles livros que lês e pensas: este tipo acertou na mouche. É muito mais simples apontar o dedo a todos os problemas, que são fáceis de identificar, do que fazer-se aquilo que o José Gil propõe ao longo dos vários ensaios: cada um de nós estar disposto a analisar a maneira como vive. E confrontarmo-nos com o facto de estarmos a viver sempre com medo de tudo e de todos – até medo de nós próprios, daquilo que podemos aspirar a ser. 

Achas que isso capta um espécie de ambiente mental da sociedade portuguesa?

Sim, é como se fôssemos nós próprios os maiores inimigos da possibilidade de se construir uma sociedade diferente.

Apesar de não ser uma adaptação, O Medo de Existir partiu destas duas leituras. De que forma?

Na verdade, o ponto de partida podia ter sido outro qualquer. Não sei até que ponto é que foram sequer uma grande influência para este espectáculo; em certa medida foram só dois livros que li nesta altura e que, como outros, contribuíram para o que estava a pensar. Seja como for, relaciono muito a Utopia com obras como o 1984, de George Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, livros em que se desenha um futuro provável, como se identificassem a direcção que a sociedade parece estar a tomar. Portugal Hoje: O Medo de Existir, por outro lado, é mais uma análise da relação do indivíduo com a sociedade. Entre os dois resume-se mais ou menos a vida toda.

Em qualquer dos casos que referes parece existir por parte dos autores um desejo latente de provocar no presente um pensamento sobre o que se passa, com uma espécie de alerta acerca dos destinos da sociedade e do indivíduo. E o que tu propões com este espectáculo constitui, em certa medida, um gesto semelhante.

Sim. Mas é importante constatar que a Utopia foi escrita há 500 anos e ainda estamos nisto… Parece ser uma espécie de luta eterna.

O que queres dizer com “ainda estamos nisto”?

Parece haver fundamentalmente dois tipos de pessoas: as que se deixam levar pelas coisas e as que tentam construir um ponto de vista em relação ao real para perceberem em que situação é que estão metidas. As pessoas que estão conscientes e as que não estão conscientes, no fundo. Sem querer com isto fazer qualquer tipo de julgamento em relação a qualquer uma destas posturas. Porém, o facto é que obras como estas parecem, seja qual for a época, alertar para os perigos inerentes a um caminho de inconsciência. 

Hoje a tecnologia tornou a informação acessível a todos. Em que medida é que esse acesso pode incentivar a consciência, partindo do pressuposto que o caminho inverso já provou por diversas vezes as consequências que pode trazer à humanidade?

Quando falo de consciência não estou a referir-me ao que acontece por termos acesso à informação. Não é isso. Quando falo de consciência, refiro-me a consciência individual. Estou a falar daquilo que só se pode ganhar através da filosofia, da arte, de coisas que cultivem o espírito de cada um. Não é por acaso que nas distopias nenhuma forma de arte parece sobreviver. O que nos está a defender, à nossa sociedade, é o facto de ainda haver pessoas que escrevem, que fazem música, teatro, que pintam… Há pessoas que ainda dedicam as suas vidas a pensar. E isso é que ainda faz com que a sociedade se mantenham minimamente equilibrada.

Dá-me a sensação que por vezes há quem leve a mal o facto de alguém assumir essa posição, a de pensar o real e propor que os outros se confrontem com um determinado ponto de vista. Quem somos nós, no fundo, para propor uma determinada história que contribua que alguém pense seja o que for?

Mas e quem é que são os outros para colocar em causa o facto de fazermos esta ou aquela proposta? Não me parece que tenhamos de colocar em causa se o que fazemos é importante ou não para a sociedade. Um médico não passa a sua carreira a questionar se aquilo que faz tem ou não tem um propósito. Um político, idem. As actividades que deixam de existir é porque  deixam de ser necessárias. O teatro, por exemplo, existe há mais de 2500 anos. É muito mais antigo do que a maioria dos bullshit jobs tão em voga hoje, tarefas, essas sim, que na realidade não servem para nada. Quem questiona o lugar do teatro, da arte, da filosofia na sociedade, que fazem com que a humanidade se aproxime de si própria, só pode ser por ter medo de constatar a verdadeira inutilidade e inconsequência do que está a fazer.

Que proposta de pensamento é que gostarias de fazer com este espectáculo?

Independentemente da posição em que te colocas, ou da função que tens na sociedade, toda a gente tem medo de qualquer coisa. E quase toda a gente quer ser alguma coisa que não é. Uns têm medo de estar sozinhos. Outros de assumir as suas acções. Outros, medo de não serem amados. Outros ainda, de assumirem o que são. Somos todos muito parecidos uns com os outros, no fundo. E, fazendo essa análise, torna-se muito difícil julgar o outro. Independentemente do que fazemos, ou de como nos encaixamos na sociedade, a verdade é que andamos todos nisto.

Não há esperança em conseguirmos construir uma sociedade sem medo?

Eu não faço teatro para as pessoas terem esperança nisto ou naquilo. A esperança só pode vir das próprias pessoas, ao decidirem se querem continuar a viver da mesma forma, ou optarem por viver com menos medo. Se cada um de nós fizer alguma coisa concreta para ter menos medo, isso em si talvez seja um motivo para termos esperança. 

Achas então que o lugar da arte e da cultura é um espaço de pensamento livre, do qual não há propriamente conclusões a retirar?

O que pode fazer é acrescentar pontos de vista, coisas que ainda não se tenha pensado. E acho que a arte também pode proporcionar uma fuga da rotina. Como é que vais pensar coisas novas se fazes mais ou menos as mesmas coisas todos os dias? Até a ideia de viajar já surge de uma forma previsível e rotineira. Parece estar tudo mais ou menos pré-definido. Os próprios roteiros turísticos parecem levar-te a ver aquilo que tu já sabes, que é familiar, expectável.

Mas em que medida é que ir ver um espectáculo não faz parte desse roteiro pré-definido do que deve ser a vida? Como é se pode transformar num momento em que vês qualquer coisa de inesperado?

Acho que a única possibilidade que existe de se ver qualquer coisa de inesperado tem que ver com o acesso ao ponto de vista de alguém diferente de ti. Não há nada mais estimulante do que uma conversa com uma pessoa que conheces mal, porque te permite ter acesso a um ponto de vista que é construído a partir da sua própria rotina, necessariamente diferente do teu, tendo tido influência não apenas do quotidiano mas igualmente de tudo o que essa pessoa leu, experienciou, ouviu… O teatro resulta de uma relação pessoal entre quem propõe determinado espectáculo, os actores, os técnicos, e o público. Cada espectador tem uma relação individualizada com o espectáculo, no caso com o ponto de vista de alguém – neste caso o que eu propus – na conjugação com o que cada um dos actores acrescentou durante o processo de trabalho.

O que é que achas impede cada indivíduo de assumir o seu ponto de vista perante a sociedade?

O medo. O medo de perder alguma coisa, o trabalho, o medo de não ser aceite pelos pares, o medo de fazer alguma coisa que a tua educação te moldou para não fazer. Tudo isso é assustador. Acho que a mais forte é a ideia de perder o trabalho. O que não é assim tão diferente, se pensarmos nisso, do que se passa numa ditadura. Pode parecer que estamos muito longe dessa realidade mas não estamos. Há muita gente que tem medo de falar com medo de perder o trabalho. Deixar de falar por ter medo de algum tipo de consequência não será semelhante a viver sem liberdade?

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