1. Futebol é um desporto estimulante e dinâmico, tacticamente interessante e esteticamente apelativo. Se bem jogado, é uma forma de arte. Gosto de futebol, gosto de ver um bom jogo, e acompanho por alto os jogos da minha equipa (tecnicamente, sou do Benfica).

2. Dito isto, o futebol veio a tornar-se no que é um dos mais prevalentes fenómenos de alienação em massa na sociedade portuguesa.

Muitas pessoas não sabem grande coisa sobre o mundo que as rodeia, e não têm grande consciência (ou fazem por não a ter) dos problemas da sociedade, mas sabem tudo o que há para saber sobre bola. Vivem o jogo como se fosse uma extensão das suas próprias vidas: ganham quando a equipa ganha, perdem quando perde, e sofrem mais pelos desaires do clube que pelos problemas nas suas próprias vidas, e nas suas próprias famílias. 

Isto é, claro, altamente incentivado pelos media, que conseguiram persuadir o país que o dia-a-dia do futebol é mais importante que a realidade do mundo, e que o que tal jogador disse ao outro, no final do jogo, e os olhares que trocaram entre si, são temas giros e relevantes, que podem ser debatidos de cara séria. 

Uma parte essencial em tudo isto é a imprensa desportiva, que é o equivalente masculino das revistas femininas de moda e de novelas. 

3. A obsessão nacional com futebol não é um fenómeno recente, mas é exponenciada em muitos factores pelo facto de a sociedade se ter tornado numa sociedade de entretenimento – uma sociedade pervadida por entretenimento, onde o mesmo começa por ser uma distracção soporífera da vida real, até ao ponto em que (nas vidas de muitos) se torna mais importante que essa vida real.

Assim, muitas pessoas perdem todo o seu tempo livre a ver bola, a ler sobre bola, a falar sobre bola – muitas não têm tema de conversa que não seja a bola. Algumas sabem tudo sobre os jogadores e vivem para o autógrafo e para a t-shirt autografada. Muitas outras vivem para o clube e para o jogo no fim de semana, e é nisso que encontram sentido de vida. 

4. Muitos homens adultos dos dias de hoje preocupam-se mais com a bola que com o que está a acontecer na sua sociedade, ou até nas suas próprias famílias. Preferem ver bola a estar com as esposas, e preferem ver ‘miúdos de ouro’ no relvado, a passar tempo com os próprios filhos (que deixam entregues ao que quer que surja à frente para ocupar o lugar do pai no desenvolvimento do filho). Muitos destes homens não se importam com corrupção no mundo real, mas estão disponíveis para debater horas sem fim (até para lutar entre si) à volta de corrupção no futebol. 

5. Hoje, apostas e casinos online à volta de bola são um novo el dorado. Muitas pessoas mal têm dinheiro para comer, mas os bilhetes para o jogo, o merchandise do clube e a subscrição do canal de desportos são algo que não pode faltar. Toda a atenção mediática é dada às polémicas entre o treinador e o dirigente desportivo, e o mais banal evento no estádio recebe a mais exaustiva cobertura em directo que possível. 

Jogadores de topo são os novos semideuses, os novos heróis épicos e, como Marshall McLuhan teria observado, chegará o dia em que jogadores de bola serão eleitos para altos cargos pelo mero facto de serem celebridades. 

Títulos de 1ª página garantem que o treino de manutenção do jogador, as contratações de inverno, e a marca do telemóvel do treinador são temas consequentes. A namorada do jogador, o carro que tem, a casa que comprou e, já agora, comprou-a ao outro jogador (são amigos e dão-se bem), são os temas de todo o tipo de artigos cor-de-rosa para homens. Da mesma forma, qual a discoteca a que o plantel foi a seguir ao jogo, se em média preferiram mulheres louras ou morenas, e se estas estão acessíveis no Facebook. A opinião do presidente sobre qualquer coisa. O dia-a-dia do homem do balneário. Será que o plantel é unido ou que às vezes discutem entre si. E aqui está como o fútil e irrelevante passa a dar cartas no mundo real. Coisas ao nível de Cartoon-Network-encontra-se-com-a-Hustler são hoje tema de ávido interesse entre pessoas adultas, e isso é essencialmente assustador.

6. Muitas pessoas não sabem muito sobre as Nações Unidas ou sobre a União Europeia, mas é possível que saibam tudo o que há para saber sobre FIFA e UEFA. A maior parte não se interessa por política, mas é continuamente exposta à política da bola. E, através da política da bola, aprende que sucesso implica liderança por homens fortes (e todos obedecem), sob a supervisão iluminada de ‘investidores’, bancos e seguradoras. Aprende ainda que força, irracionalismo e o poder do dinheiro são conceitos politicamente viáveis, e que os fins justificam os meios. Aprende também que a imprensa é genericamente sensacionalista e inconveniente, que alguns jornalistas deveriam ser feitos “aprender maneiras”, e que deveria haver limites à liberdade de imprensa. Por outras palavras, aprende pirataria. Porém (e muito mais grave que isso), também aprende, de modo subtil e a partir do contexto específico da bola, a teoria e a prática de fascismo corporativo de século 21. E isto é algo que implicaria todo um artigo só para si.

7. Hoje, o futebol é claramente o circo em “pão e circo”: o entretenimento fácil e barato que se dá 
às massas para as manter distraídas, contentadas, desinteressadas da realidade, embrutecidas. É também uma luta gladiatorial na arena, à medida que o jogo se transforma continuamente mais de desporto competitivo entre atletas, em batalha adversarial entre lados rivais. 

É ainda algo que funciona como um extraordinário mecanismo de supressão da realidade

Quando as pessoas dedicam toda a sua atenção ao mundo de fantasia que é o mundo da bola, eis que o mundo real, e os problemas do mundo real, ficam longe da vista e, como tal, longe do coração. Ao mesmo tempo, a pessoa que faz isto é ela própria absorvida, “sugada” pelo mundo de fantasia. Não está a viver no mundo real, mas sim neste mundo ficcional. Está alienada. 

E, no final de contas, está-se a falar de algo que é um mero jogo – 22 homens a correr atrás de uma bola. Algo que é inteiramente irrelevante no grande esquema das coisas e que não conta em nada para o futuro da Humanidade: algo que não vai ajudar ninguém, nem vai resolver a economia, nem melhorar o panorama sócio-político, nem proporcionar avanço científico-tecnológico. 

O mundo real tem demasiados problemas, e demasiadas coisas para resolver, para que pessoas adultas percam qualquer porção significativa do seu tempo de vida (muito menos para que se tornem obcecadas) à volta de jogos e futilidades. Quando tudo está dito e feito, é uma questão de princípio de realidade. Diz-me o que aceitas que comande a tua vida e eu dir-te-ei o que és. 

Ser comandado por jogos de bola? 

8. O poder que o futebol exerce sobre a sociedade advém largamente do facto de, para muitos, ser um potente soporíferopara as dificuldades, preocupações e desalentos da vida. Estas coisas são tornadas suportáveis pela emoção do jogo, pela bola a entrar na baliza, pelas vitórias. Desde que a equipa marque, ganhe, cilindre o adversário, vença o campeonato, a vida ganha cor, animação e feelgood: as frustrações são amenizadas, as inquietações, tranquilizadas, e os problemas, tornados temporariamente irrelevantes. A rotina cinzenta do dia-a-dia torna-se tolerável, e a semana de trabalho, de contrário difícil e pesarosa, torna-se ligeira e flui na expectativa do próximo jogo.

9. Muitas pessoas sentem que as suas vidas estão incompletas, ou até mesmo vazias (não estão a cumprir os seus reais propósitos na vida). Vivem vidas insatisfatórias e são inseguras sobre o seu valor pessoal. Muitas sentem que não têm poder de decisão no dia-a-dia, no trabalho, em casa, ou sequer sobre os seus próprios destinos. Ainda que não o admitam, sentem que falharam na vida. 

futebol devolve-lhes auto-estima e senso de concretização pessoal. 

Ao tornar-se adepta de um clube, a pessoa projecta a sua identidade pessoal para o clube, para o jogo, para os jogadores, e vence através das vitórias dos mesmos. Vive as façanhas e os sucessos de outros como se fossem os seus próprios. Obtém poder pessoal através do poder da equipa, do poder do clube, da força colectiva da massa de adeptos a que pertence. Obtém sucessos pessoais através das concretizações de outros. 

Ao mesmo tempo, ganha uma forma de sentido de vida. Passa a pertencer a algo que tem valor, que é inspirador e que é maior que a própria vida: ao clube e à tribo humana de adeptos que se forma à volta do clube. E, vai acompanhá-los semana após semana, jogo após jogo, incidente após incidente – de vitória em vitória, e de derrota em derrota, até à vitória final que espera no horizonte. 

10. O futebol oferece também uma luta simulada entre bem e mal. Os bons são o próprio clube (e esses são confiáveis e simpáticos), o mal é incorporado pelos rivais directos (que, claro, são feios, porcos e maus), e todas as outras equipas estão distribuídas algures ao longo da escala de cinzentos. 

Nisto, torce-se, sofre-se e luta-se, faz-se e acontece-se, pela vitória dos ‘bons’ contra os ‘maus’, e ‘faz-se frente’ aos maus onde quer que eles possam ser encontrados (no estádio, no trabalho, no café, etc.), chegando-se ao ponto de os considerar, e tratar, como inimigos. 

11. O tribalismo clubista que é cultivado pela cultura criada à volta do futebol tende a levar àquele que é o mais mesquinho dos estados de espírito, o de inimizade para com o próximo: despreza-se e odeia-se alguém por algo tão arbitrário como a preferência clubística, sente-se deleite para com as suas derrotas, inveja e frustração negra para com os seus sucessos, e arrogância triunfal e altiva perante a sua inferiorização.

12. A luta simulada na bola reforça em muitos factores o papel da bola como instrumento de alienação. Se «nós somos os bons, e o nosso clube é maior que a própria vida e tem de prevalecer», e «há que fazer frente aos nossos rivais, derrotá-los», e essa se torna gradualmente na luta que realmente interessa na vida da pessoa, então a luta ficcionada no futebol acaba por se substituir às reais lutas entre bem e mal no mundo real. A causa clubística acaba por ocupar o lugar que deveria ser ocupado pelas causas reais que estão à espera de ser defendidas no mundo.

A cultura criada no futebol está aqui a cooptar o instinto natural humano de fazer frente àquilo que é mau e destrutivo, em nome daquilo que é bom e pleno – um instinto primal indispensável, orientado para a sobrevivência e para o avanço da espécie. Ao desviar este instinto para entrega clubística, as pulsões que deveriam impelir a actividade construtiva no mundo real, são desviadas para a bola, e as energias, o tempo, a atenção e a entrega que deveriam ser canalizadas para coisas reais são dissipadas nas falsas causas da bola.

13. E é isto que Konrad Lorenz, o célebre nazi reciclado tornado engenheiro social no pós-guerra, achou fascinante em desportos de arena, como explicou em On Aggression (1966): eram disputas simuladas para as quais o espírito de iniciativa das camadas jovens da população podia ser desviado. Desta forma, em vez de se tornarem participantes activos nos destinos da sociedade humana, os jovens podiam ser tornados adeptos descerebrados, colectivamente mobilizados em apoio à tribo guerreira artificial, a equipa de desportos. 

O produto auto-evidente disto é a claque organizada de futebol. 

14. E, é um facto que, hoje, o futebol internacional está infestado por claques violentas e pseudo-ideológicas, ou simplesmente dedicadas a crime organizado. Muitas destas claques são verificáveis milícias paramilitares urbanas. Tendem a servir de exércitos privados para indivíduos poderosos e grupos influentes, mas ocasionalmente também têm vontade própria. Têm a capacidade de intimidar polícia e estruturas governativas nas suas àreas locais e, de futuro (dê-se um contexto de crise societal alargada), talvez venha a ser percebido que também têm a capacidade para levar a cabo motins e tomadas de poder locais. O assalto a Alcochete de Maio de 2018, amplamente mediatizado ao longo de todo o mundo, foi só uma amostra pálida e comparativamente inócua do potencial de grupos deste tipo para a criação de desestabilização e caos.

Estas coisas são graves ameaças à segurança pública. Curiosamente, na era da ‘segurança nacional’ (não segurança pública, mas sim ‘segurança nacional’ – há diferenças), coisas deste tipo tendem a ser tacitamente toleradas e deixadas proliferar pela generalidade dos estados.

Comentários e sugestões para rui.miguel.jesus.garrido@gmail.com

Rui Garrido

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