Ao longo dos últimos anos os países entroikados têm vivido muito abaixo das suas possibilidades devido a uma receita, que em vez de tentar a cura, aplica veneno que vai minando os sistemas económico e social destes países e protegendo os principais culpados da situação a que chegamos.

É certo que antes desta crise, estes países foram mal geridos, efetuando investimentos mal planeados que ao invés de proporcionarem mais riqueza, geraram maior dívida e menor sustentabilidade. A crise da dívida soberana é em grande parte fruto da gestão danosa consequente por exemplo de contratos de Parceria Público-Privadas que não serviram na sua maior parte os interesses das suas populações mas sim outros interesses pouco claros. Estes contratos trouxeram grande promiscuidade entre gestores de topo, públicos e privados, o poder financeiro instituído e a classe política que tem governado estes países.

Esse poder instituído, de forma transversal a toda a sociedade, não só portuguesa e não só europeia, tem concentrado riqueza e prescrito pobreza, subdesenvolvimento e maior dependência. Depois, os seus lacaios, representantes em várias instituições e em vários governos destes países, prestam vassalagem a esse poder, sendo ainda apoiado pela quase generalidade dos meios de comunicação social, que não prestam um verdadeiro serviço público, desviando as atenções daquilo que verdadeiramente é mais importante.

Assim, este poder instituído decidiu espalhar a notícia de que vivíamos acima das nossas possibilidades, fazendo crer que percebiam alguma coisa dos orçamentos familiares. Depois cortaram nos rendimentos disponíveis das famílias pensando que estes seriam tão elásticos como os deles. De seguida, “teatralmente”, acharam estranho que as empresas em vez de aumentarem as suas vendas fechassem as suas portas criando mais desemprego. Será que não perceberam que é o rendimento das famílias que tem impacto direto no consumo, e este na saúde do tecido empresarial? Depois desviaram o dinheiro do sistema económico para o sistema financeiro onde ele não circula nem acrescenta valor e muito menos desenvolvimento.

Pois… não é preciso ser muito inteligente para perceber o que aconteceu. Esta crise serviu para que qualquer cidadão destes países ficasse a perceber um pouco mais de economia. Serviu para mostrar aos trabalhadores que os seus patrões precisam de gerar riqueza para efetuar investimento e assim criar emprego. Serviu para mostrar ao pequeno empresário que a redução do rendimento disponível das famílias só lhes traz problemas acrescidos na gestão do seu negócio por afetarem negativamente as suas receitas. Serviu para mostrar que os cortes cegos na educação, justiça e saúde transformaram países desenvolvidos numa sociedade medieval em que o senhor feudal põe e dispõe sem que os seus súbditos possam ter direito a questionar as suas opções quanto mais em ter uma vida digna.

Já Stiglitz, nobel da economia, alega que, a estes países entroikados, foi prescrito veneno, que por cá se deu o nome de austeridade, em vez do tratamento adequado à retoma do seu crescimento económico, e que em vez de tratar aumenta ainda mais a dívida e torna quase impossível o cumprimento dos seus compromissos. Já viram alguém com dificuldade em satisfazer os seus compromissos consegui-lo fazer se ficar mais pobre?

A Troika e o Eurogrupo não servem a Europa nem os seus cidadãos. Sabem perfeitamente que têm estado a receitar veneno aos países em crise, de forma autoritária e desejando continuá-lo a fazer sem qualquer oposição. Além disso, ainda pretendem demonstrar que as alterações políticas em curso na Europa, são irresponsáveis, como Wolfgang Schaüble referiu acerca da já acontecida na Grécia. Esta retórica é velha e faz lembrar um pouco resquícios de quem se acha descendente de uma raça superior. Se houve alguma irresponsabilidade, foi, essa sim, da Troika, do Eurogrupo e de quem os apoia que sem ouvir os cidadãos europeus tem levado a cabo um processo de destruição do Estado Social destes países, de forma concertada, não contribuindo para a redução da dívida nem para o crescimento económico, este sim gerador de riqueza possibilitando mais investimento, mais emprego e mais receitas fiscais ao Estado.

À Alemanha sabe-lhe bem estar no Euro porque assim, as suas exportações são bem mais concorrenciais, por os outros países europeus puxarem o câmbio do euro para baixo, e o seu mercado interno não é inundado por outros produtos europeus uma vez que os outros países europeus não podem desvalorizar a moeda. Caso esta saísse do Euro a sua moeda valorizaria pondo em causa toda a sua economia. A União Europeia foi construída para que todos pudessem beneficiar dela. Se apenas praticamente a Alemanha beneficia dela, como diz Stiglitz, talvez a Europa em vez de colocar em causa a continuação de algum dos países no Euro devesse a própria Alemanha pensar na sua própria saída.

Estamos presentemente a assistir a uma espécie de 3.ª Grande Guerra em que o poder financeiro, delegado no poder político da Europa, no FMI e em muitos governos nacionais, entre os quais o português, destrói o mundo desenvolvido tentando exterminar o Estado social e os direitos dos cidadãos, consagrados nas leis nacionais e internacionais.

É tempo de mudar! É TEMPO DE AVANÇAR! É tempo de ser LIVRE!

 

Luís Figueiredo

Membro do Grupo de Coordenação Local do Núcleo de Setúbal do LIVRE e Subscritor do TEMPO DE AVANÇAR

Partilhe esta notícia