Há um exercício – recorrente nas sociedades de matriz judaico-cristã – de culpabilização de alguma coisa, quando as coisas não correm bem. Na sociedade portuguesa acresce o intrínseco saudosismo, que nos leva ao permanente retorno ao passado e à lamentação, mas também a procura, usualmente no que nos rodeia, de um conjunto de circunstâncias que nos impeça a resolução dos problemas com que somos confrontados. A nossa natureza sebastiânica, de aguardar que venha do exterior – seja ele relativamente a cada um de nós, ao país ou à Europa – uma solução milagrosa, já tem barbas, mas continua a impedir muitos cidadãos de descobrir dentro de si próprios a possibilidade de corrigir as falhas que vamos encontrando na nossa vida pessoal e social.

Desse ponto de vista, a filosofia oriental responsabiliza o indivíduo pelo seu percurso e pelas consequências dos seus atos – ou falta deles. Um oriental preocupa-se que um erro nas suas tarefas penalize o coletivo a que pertence, que a sua inação inviabilize o alcançar de um objetivo, que não estar presente na concretização de um ideal prejudique a sua empresa, a sua comunidade, a sua família. Como costumamos dizer por cá, veste a camisola em todas as circunstâncias e não apenas quando se fala de clubes de futebol ou do seu próprio umbigo. Mas esse vestir da camisola vai mais além, transporta em si a ambição de estar cada vez mais próximo de uma perfeição, ilusória mas assumida, pela sua entrega a cada momento da vida.

Nesse particular, o Tempo de Avançar surge como o espaço recém-nascido para quem procura uma nova rota para esse oriente, que nos traga de volta o que podemos ser de melhor, como indivíduos e como sociedade.

Não criamos nada se vivermos, como país, na culpa que nos atribui a Alemanha, a quem perdoaram a dívida após a 2ª guerra mundial e um dos que mais beneficiou com a destruição do aparelho produtivo dos países europeus ditos periféricos; como cidadãos, na culpa que nos atribuem os demagogos hipócritas que nos desgovernaram nas últimas décadas; como seres humanos, na culpa auto flageladora que nos impede de, lúcida, esclarecida e racionalmente, assumirmos o nosso papel no mundo.

Aguardamos a sua contribuição, no Livre e no Tempo de Avançar, para que também seja ator e motor de um mundo melhor.

 

Heitor Matos

Membro do Núcleo territorial de Setúbal do LIVRE e subscritor da Convocatória Tempo de Avançar

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