Nem só de contas e de gramática se faz a educação. Um país que se quer orgulhar do seu futuro, cuida dos seus jovens, derruba-lhes os muros do passado para que possam ver o horizonte, querer mais, chegar mais longe.

Um país que ambiciona ser mais do que foi, aposta na educação, ensina mais do que letras e números, ensina música, teatro, literatura, artes plásticas, pintura… Cultiva hoje tudo o que será o nosso património de amanhã.

Esse país já não é Portugal. Ao longo das últimas décadas as gerações que fizeram abril criaram um sistema público de educação que desse aos seus filhos e netos aquilo que a ditadura lhes roubou: o futuro. Este país apostou na qualificação e por isso temos hoje centenas de milhares de jovens altamente formados que procuram uma resposta fora deste país que, não sendo para velhos, também já não é para jovens.

Nesse esforço coletivo foram surgindo ao longo dos últimos 40 anos escolas de ensino artístico, conservatórios, academias e associações que formaram músicos, desportistas, bailarinos, artistas, alguns dos quais hoje são internacionalmente reconhecidos pelo seu trabalho. De cada vez que um desses jovens se afirma na sua excelência, o país orgulha-se porque sabe que trabalhou para ele.

No entanto, nos últimos anos o Estado tem vindo a desresponsabilizar-se pela educação destes jovens. Não apenas porque despede professores e fecha escolas, mas pela forma quadrada e retrograda com que o Governo PSD/CDS olha para o sistema de ensino.

Esta visão leva a que o Governa tenha escolhido asfixiar as escolas de ensino artístico a quem confiamos a educação dos nossos jovens.

Por não ter capacidade para desenvolver currículos de música e artes nas escolas públicas, o Governo contratualizou com dezenas de instituições programas de ensino artístico integrados escolarização básica e secundária. As crianças e jovens que frequentam estas aulas são avaliadas pelo seu desempenho e as suas notas são integradas nas notas finais dos graus de ensino que frequentam. São estes os futuros músicos, cantores, atores e artistas do nosso país, dos quais nos queremos orgulhar amanhã.

Mas o Governo insiste em negligenciar esta componente essencial da educação. Por essa razão, há dezenas de escolas de ensino artístico que estão em rutura financeira e algumas suspenderam já as suas aulas. Tudo porque o Governo teima em não transferir o dinheiro que contratualizou com estas escolas para a educação dos seus alunos.

No Distrito de Setúbal são quatro as instituições que estão nesta situação: a Academia de Música de Almada, o Conservatório de Palmela, o Conservatório de Setúbal e a Academia Luísa Todi. As dívidas do Governo a estas escolas deixam professores sem salários, dirigentes a mãos com dívidas que não são suas, e põem em causa a educação das crianças.

O Bloco de Esquerda visitou esta semana a Academia de Música de Almada. A dedicação e o empenho dos professores desta escola contrastam em tudo com a irresponsabilidade do Ministério da Educação: a Academia está a funcionar desde o início do ano letivo sem ter recebido um cêntimo do Estado. Há quase 200 alunos do ensino integrado que foram abandonados por este Governo e, com as aulas suspensas, esperam agora que o Governo pague o que deve para poderem voltar às aulas.

Nem só de fazer contas e de saber ler e escrever se faz a educação e a cultura de um povo. O ensino artístico deve ser parte integrante do nosso sistema de educação, como um bom investimento para o futuro. Mas, para isso, teremos de mudar de Governo porque este só conhece a arte de destruir.

 

Joana Mortágua

Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda em Setúbal

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