Ao longo de 4 décadas de democracia temos ouvido sempre as mesmas críticas aos partidos de esquerda. Têm sido identificados como sectários. Fechados sobre si mesmos. Entrincheirados nos seus princípios. Avessos ao diálogo. Alérgicos a consensos.

Hoje, esses mesmos partidos são parte integrante de uma mesa redonda, que discute uma alternativa real à austeridade política. Seria de esperar elogios a esta abertura para a conversação. Mas a reacção não se fez esperar. A direita, receosa de perder o habitual espaço pragmático da política nacional, depressa veio a terreno alertar contra o perigo da ameaça vermelha. Essa esquerda radical, que vai deitar a perder 4 anos de intenso empobrecimento nacional. Não se faz…

Para cúmulo deste escalar de diatribes, a direita e sua pandilha de comentadores, editores, politólogos e eteceteras, acusam agora o BE e o PCP de traírem a sua ideologia. Ora francamente. Ainda há pouco tempo acusavam esses mesmos partidos de estarem prisioneiros da sua ideologia e fechados à realidade que os rodeia! Agora que ameaçam quebrar essa prisão estão a falsear os seus fundamentos? Isto até daria um sketch cómico, não fosse de tal forma confrangedor. Sentem o poder a escapar; e isso aflige-os e expõe-nos ao ridículo.

Com efeito, parece que os entendimentos políticos, o tão apregoado consenso, está destinado a um campo ideológico pré-definido. Ou antes, provavelmente está intimamente ligado à negação ideológica. É simples perceber que o PSD há muito que vendeu a sua social-democracia ao neoliberalismo e que o CDS perdeu a sua raiz da democracia cristã e esqueceu a doutrina social da igreja, em detrimento de uma sociedade empreendedora, competitiva e onde impera a lógica do mais forte.

E é este desprendimento à sua “tradição” ideológica, que faz com que a direita facilmente se coligue antes, após ou durante actos eleitorais. Frequentemente lança o anzol ao PS, que lá vai mordendo o isco. Mas desta vez parece não querer ir no engodo. Existe uma raiz comum que une a esquerda parlamentar que vai mais fundo que a mera identificação de socialistas, marxistas, leninistas ou trotskistas. É possível a construção de uma ampla frente progressista, que recoloque o país no rumo do crescimento e que aposte na mitigação das desigualdades. Para isso não basta dar carta-branca ao PS e firmar um acordo de incidência parlamentar. É necessário que BE e PCP integrem o governo, através de militantes próprios ou independentes da sua área, dando garantias de uma estabilidade duradoura e de um compromisso sério para uma legislatura. Só assim poderão deixar clara uma intenção de compromisso ao povo português, ao mesmo tempo que dão um recado ao presidente (que eu recuso a denominar da república, pois não respeita os princípios da igualdade e do pluralismo democrático).

No LIVRE sente-se que a desilusão do resultado nestas eleições legislativas está a ser de alguma forma contrabalançada por este cenário. A mensagem mais vezes repetida pelo movimento durante a campanha eleitoral foi a da necessidade da esquerda convergir. Portanto, vivemos com especial interesse este tempo novo na democracia nacional. E qualquer que seja o desfecho temos a sensação que as coisas não voltarão a ser as mesmas.

Isso só pode ser positivo…

 

Montijo, 4 de Novembro de 2015

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