A mais bela das contradições.

 

Somos chamados a viver num mundo que constantemente desafia a lógica, os padrões e os costumes, que põe em causa os valores e as tradições que conhecemos e que muitas vezes entra em contradição amando o paradoxal. É no mundo em que os valores, os afetos e a forma de relacionarmo-nos com os outros se destruturou.

É um mundo que entra em contradição, quando constantemente pomos em causa a sustentabilidade do planeta, gastando de uma forma esquizofrénica os recursos naturais.

É um mundo que entra em contradição quando as desigualdades entre ricos e pobres continuam a aumentar, em que os ricos exploram os mais necessitados para enriquecerem ainda mais, e onde continuam a persistir situações dramáticas de miséria, fome e precariedade.

É um mundo que entra em contradição quando ainda muitas dezenas de milhões de crianças não têm acesso à educação e à oportunidade de aprender a ler e escrever.

É um mundo que entra em contradição quando aprova a lei do aborto, impedindo assim que por ano milhões e milhões de crianças tenham o simples direito a nascer.

É um mundo que entra em contradição, quando deixa para trás os seus velhos deixando-os entregues a si próprios, à solidão e ao abandono, mais tarde aprovando leis como a da Eutanásia para eliminá-los a eles e todas as pessoas indesejáveis da face da terra.

É um mundo que entra em contradição quando em muitos países os mais básicos direitos das mulheres e a sua dignidade estejam muito longe de serem reconhecidos.

É um mundo que entra em contradição ao querer tratar hoje os animais como pessoas e as pessoas como animais.

É um mundo que entra em contradição, quando são alguns dos próprios países que pedem a paz para a guerra que há mais de 5 anos se alastra na Síria, serem os países que por trás forneçam as armas para o conflito, aproveitando-se da guerra para obter o lucro.

É um mundo que entra em contradição, quando ainda hoje persistimos em ideologias de morte, que perseguem as pessoas pelas suas crenças e formas de pensar.

É um mundo que entra em contradição ao querer ensinar nas escolas doutrinas que vão contra a nossa natureza humana.

Podia fazer muitos mais parágrafos das contradições do mundo de hoje, mas acima de tudo estamos a perder a nossa humanidade, o homem deixa de querer ser homem, a mulher deixa de querer ser mulher e juntos negam com todas as forças a presença de Deus.

Na semana passada uma vez mais deu-se a Jornada Mundial da Juventude, onde os jovens católicos foram convidados a encontrarem-se com o Papa. Mais de 2 milhões e meio de jovens atenderam ao seu pedido e rumaram a Cracóvia. Tive a oportunidade de estar presente e testemunhar a força da juventude e da minha geração, a força de uma Igreja unida na diversidade de países e línguas e em comunhão com Sua Santidade o Papa Francisco. O sucessor de Pedro desafiou-nos a fazer do mundo um lugar melhor, a serem os jovens os agentes de mudança nesta sociedade.

Não será por isso contraditório que numa sociedade marcada pelo consumismo, o egoísmo e a intolerância tenham surgido a misericórdia, a compaixão e o amor ao próximo. Não será por isso que a mais bela contradição do nosso mundo de hoje, contrariando todas as leis da probabilidade, sejam os jovens Cristãos e o Cristianismo?

Ao mesmo tempo que começava a Jornada fui confrontado com os terríveis ataques em França e com a degolação do padre Père Jacques Hamel. Por momentos sucumbi, torna-se demasiado fácil e quase irresistível odiar estes terroristas e pôr no mesmo saco uma religião inteira. Por ironia, no momento em que soube, visitava o campo de concentração de Auschwitz, o local onde provavelmente foi mais fácil odiar na mais recente história da Europa, onde a crueldade imperou e quase que destruiu tudo o que mais prezamos nesta vida. O bárbaro crime que tragicamente culmina com a morte do padre Hamel poderá ser comparável ao sacrifício do Padre Kolbe, um sacerdote católico que tinha sido preso pelos nazis e levado para o campo de concentração de Auschwitz e que ao ver um judeu pai de família na eminência de ser condenado decide sacrificar a sua vida para salvá-lo.  Será por isso pelo ódio que iremos derrotar aqueles que nos odeiam apenas pelo simples facto de existirmos?

Este é o desafio do Papa para os jovens, anunciem o Evangelho, num mundo que nega a presença de Deus e que tenta minimizar o Homem, porque Cristo através da sua misericórdia quer fazer-nos sempre pelo máximo.

 

“Bem-aventurados os Misericordiosos, porque eles alcançarão Misericórdia” [Mt 5,7]

 

José Maria Matias

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