“É o olhar apaixonado dos pais que cria a beleza do rosto, a coesão do self e a intencionalidade do eu”
Coimbra de Matos em Mais Amor Menos Doença

Estamos no mês da família, da mãe, da criação, da construção e do amor incondicional. Podemos questionar que o amor dos pais é incondicional? Queremos com isto afirmar que não tem limites ou seja que permite tudo? De facto quando falamos de amor paternal benevolente sabemos que amar implica um dar genuíno. Não se nasce a saber amar o outro. Amar implica ter sido amado, valorizado, principalmente nos primeiros anos de vida, na construção do narcisismo primário.
Quando o bebé nasce já carrega consigo uma carga genética mas, também, trás consigo uma carga projectiva mental das expectativas dos pais (“o bebé imaginário”). Quanto mais positivas forem as crenças dos pais, melhor será o desenvolvimento do bebé e da sua identidade precoce.
Amar de corpo e alma implica o verbal estar coincidente com o “invisível”, isto é, com a comunicação não-verbal nomeadamente, o tom da voz, o sorriso, o olhar, a postura corporal, todos estes micro-sinais irão ser entendidos perfeitamente pelos bebés.
Deste modo o amor incondicional significa, amar os filhos sem lhes retirar as asas, respeitar e validar os seus passos de autonomia progressiva e de alteridade.
Por outro lado o amor paternal presume, igualmente, impor limites, compreender, no seio de uma relação intersubjectiva, o que o outro sente, perante determinados comportamentos. Todos estes processos de interacção emocional e de contenção emocional são os melhores trunfos que os pais poderão dar aos seus filhos, isto é, uma boa capacidade de auto-regulação afectiva no futuro. Assim os filhos poderão partir para os desafios da vida com esperança e resiliência.
Amar não é dor, não é ansiedade, dúvida, desconfiança, crítica ou julgamento, amar é aceitar e considerar, é a admiração genuína que provoca, tão simplesmente o bem-estar da segurança afectiva. O verdadeiro amor não convida a vinda do medo descontrolado, da angústia, desperta antes, a alegria, o entusiasmo, a aventura de ir à descoberta do que é desconhecido e que se apresenta como maravilhoso.
O amor maternal eleva a nossa alma não a retrai, abafa e manipula. Amar nos torna melhores, maiores, enaltece o melhor que há em nós, não nos retira a luz e nos faz pequenos. Quando bem nutridos deste amor constituinte, dado pelos pais, o futuro apresenta-se mais positivo, o olhar brilhante dos nossos pais, passa para nós e o entusiasmo que caracterizou as nossas vivências relacionais passa para as outras relações.
Neste contexto é importante que as mães não deixem de investir nelas próprias, não se esqueçam da sua própria identidade ao cuidarem dos seus filhos. Esta postura de total entrega simbiótica aos filhos torna as crianças dependentes, sentem que não podem voar, na medida em que a mãe ficará sem chão, sem vida. É importante que a figura materna continue a viver além filhos, isto é, ter os seus interesses, os seus projectos, os seus sonhos e continuar a realizá-los a par com a experiência da maternidade. Esta atitude irá promover alegria nos filhos, ao verem a mãe realizada, ao mesmo tempo, que os irá motivar para atingirem os seus próprios sonhos.

Dra. Mafalda Leite Borges

 

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