Nos anos de 2003 e de 2005 a tendência dos governantes para o flagelo dos incêndios que invadiu o nosso País, foi remeter a responsabilização para o factor meteorológico. Em 2013 a tendência de alguns foi remeter a responsabilização para os incendiários criminosos. Em 2015, parece que a explicação recai numa mistura entre a situação de severidade meteorológica que tem caracterizado este ano, e mãos criminosas. Num ou noutro caso, é preciso termos consciência que existem outros factores que determinam a dimensão que um fogo florestal pode atingir. E é aqui que é preciso que os olhos se abram e que, de uma vez por todas, neste país se aja em conformidade!

Nunca nos poderemos esquecer de que o abandono do mundo rural, e todas as políticas que têm contribuído para a desactivação desse mesmo mundo rural, prejudicaram a floresta. E quando se encerraram escolas e unidades de saúde em zonas mais rurais também se contribuiu para retirar potencial à redinamização do mundo rural. As pessoas saíram de lá e a floresta ficou entregue a si própria! O abandono do cultivo das terras junto às áreas florestais, acabou com uma estrutura natural de corta-fogo que permitia que este não se propagasse a outras terras e florestas. Também o pastoreio extensivo que se praticava, era ele próprio uma medida de vigilância natural da floresta, pois quem pastoreava os animais, acabava igualmente por “olhar” pela floresta.

Estes e outros factores são o resultado de erradas e graves opções políticas, que ao longo dos anos têm contribuído para a total desertificação do mundo rural, das nossas florestas e do nosso património natural. Erradas opções políticas que a par de uma falta de estratégia de ordenamento da nossa floresta, de falta de medidas de prevenção e de uma forte eucaliptização, levam à perda da nossa floresta autóctone e à perda de toda a biodiversidade que sempre a caracterizou. O eucalipto é das espécies que arde mais facilmente e é hoje a espécie predominante da nossa floresta, e para agravar a situação, este Governo aprovou um novo regime de arborização e rearborização que facilita ainda mais o crescimento do eucaliptal no país.

No ano de 1990, a Assembleia da República produziu um relatório que determinava um conjunto de orientações necessárias para a prevenção dos incêndios florestais. Entre elas, encontravam-se a proibição de substituição de espécies florestais por outras, técnica e ecologicamente desadequadas, a abertura de caminhos e aceiros que facilitem o acesso ou sirvam de estanque aos incêndios, e a limpeza das matas. Passados todos estes anos, as conclusões explanadas nesse relatório, mantêm-se actuais, pois nada mudou nas políticas de gestão florestal, antes piorou, e muito.

Ano após ano, algo tem falhado, e o que tem falhado muito é nas políticas de prevenção dos fogos que têm sido nitidamente descuradas. Continuamos a apostar muito mais no combate do que na prevenção. É urgente inverter esta lógica, pois o combate é tanto mais difícil, quanto menor for a prevenção. São necessárias políticas sérias de prevenção de fogos florestais e de defesa da floresta.

Os bombeiros continuam a queixar-se das dificuldades de acesso, as aberturas de caminhos, onde é possível, ou abertura de faixas de contenção são algo que continua por existir na generalidade da floresta. Também a limpeza das matas tem sido descurada, aumentando desta forma a carga combustível de ano para ano, e a redução do número de sapadores florestais e dos meio humanos e materiais de vigilância da natureza em áreas protegidas tem contribuído para o aumento ano após ano, dos incêndios florestais.

A defesa da floresta é uma questão extraordinariamente importante e há dois factores que não podem mesmo falhar: um, é o financiamento, não havendo crise que possa justificar a falta de financiamento na defesa da floresta, outro factor são os meios humanos, e também não há crise que possa justificar a falta de meios humanos na floresta.

Outra questão que nunca poderá ficar de lado nesta equação dos fogos florestais tem que ver com as alterações climáticas. Todos os estudos indicam que o fenómeno tem tendência para se agravar, que vai haver um aumento ainda maior da temperatura média, o que significa condições mais propícias para a deflagração de fogos florestais. E nós temos de estar preparados para este quadro, porque o nosso processo de adaptação às alterações climáticas passa também por conseguir visionar aquilo que se pode perspectivar e prepararmo-nos para enfrentar os piores cenários.

O Partido Ecologista «Os Verdes» sempre alertou para a necessidade urgente de medidas de prevenção de incêndios e ordenamento da floresta portuguesa, e não apenas de combate. A aplicação de uma política de fundo que promova o ordenamento da floresta portuguesa, com a plantação de espécies autóctones, investimento na prevenção e limpeza, concretização do cadastro florestal, fiscalização efectiva, o fim da expansão das culturas de eucalipto e o aumento de meios humanos e materiais de vigilância e combate, são condição essencial para a defesa e preservação a nossa floresta.

A defesa de uma floresta viva, fonte de vida, de riqueza e biodiversidade, uma floresta de usos múltiplos, económica e ambientalmente sustentável, e protegida contra o drama anual dos incêndios florestais deve ser cada vez mais uma prioridade. Esta é, inclusivamente, a melhor forma de ajudar os nossos bombeiros que, numa demonstração de heroísmo absoluto, de uma solidariedade infindável, de uma abnegação total salvam o país, pondo em risco a sua própria vida. O país está em dívida para com os bombeiros e parte dessa dívida só será paga com resultados concretos na prevenção dos fogos florestais.

Susana Silva

Dirigente nacional de “Os Verdes”, eleita na Assembleia Municipal do Barreiro e candidata do PEV nas listas da CDU às Eleições Legislativas de 2015

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