Liberdade e educação

Ao observar com maior proximidade a escola, sentimos medo e espanto com a subvalorização, na sua substância, do conhecimento. Para nos apercebermos deste aparente paradoxo, basta falar com crianças e jovens e verificar que a importância do conhecimento, para eles, reside apenas e só na sua capacidade de servir os seus pretensos “interesses”.

Questionamo-nos, então, de onde surgem esses “interesses”. E, olhando em volta, descobrimos mentes forjadas, formatadas por rankings, jogos mediáticos, comparações abusivas ou torpes, índices de produtividade, esquemas financeiros piramidais, expectativas de carreira, enfim, os reflexos da tecnocracia dominante.

A inquietação que nos deve assaltar consiste na possibilidade real de desumanização, dos nossos filhos viverem manietados por uma realidade ilusória, de títulos e nomenclaturas, vazios de verdadeiro e profundo significado. A falta de reflexão sobre o que somos e o que queremos verdadeiramente ser, mais não é que o ocaso de uma sociedade livre, cada vez mais próxima daquela que foi simbolicamente caricaturada por Chaplin em Tempos Modernos, onde os homens constituem meros peões. Torna-se necessária, então, a libertação de uma austeridade que condiciona o livre arbítrio. Cada um de nós deve poder concretizar-se como ser humano e não como peça metálica – com sorte reciclável – de uma máquina económica que vive para se perpetuar, quando devia existir para fazer chegar a todos a paz, o pão, habitação, saúde, educação, cantando Sérgio Godinho.

No LIVRE procuramos respostas para contrariar a visão utilitária da educação, defendendo a escola pública – que se apresenta como a possibilidade de todos terem acesso ao conhecimento, à emoção da descoberta, às suas raízes culturais, à tolerância informada –, mas também um novo paradigma educativo, em que a aprendizagem não é enciclopédica, compartimentada ou distante, mas participada e sentida, em que o que aprendemos na escola é parte integrante do que somos e não um instrumento externo de consulta. Apenas desta forma o ser humano se transforma e produz o seu bem mais precioso, a criatividade. Mas também assim se conseguem novas e diversas perspectivas da realidade, que educam o livre arbítrio, levando a que seja usado de forma consciente, procurando consensos, em benefício de todos. Foram estas capacidades que possibilitaram avanços civilizacionais extraordinários ao longo da história da humanidade e são essas capacidades que pretendemos preservar e recuperar na educação em Portugal. Estamos disponíveis a considerar todas as sugestões e propostas concretas que nos conduzam a esse futuro.

Heitor Miguel Matos

Membro do LIVRE Setúbal

Subscritor da convocatória TEMPO DE AVANÇAR

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