Gosto de refletir na dimensão turística do Barreiro porque ela converge com uma das necessidades que penso ser das mais prementes para a nossa cidade: o aumento da população e consequentemente o aumento da atividade económica por inerente aumento de potenciais consumidores. Sabemos que vivemos numa concelho extremamente envelhecido, que está a perder população residente e que parece incapaz de contrariar esta tendência, com impacto natural no comercio local porque o universo de clientes diminui, especialmente se associarmos a esta diminuição uma forte redução da população ativa e uma alta taxa de desemprego, baixando o poder de compra de forma considerável.

Parece-me uma ideia sustentada que tão importante como captar população residente é desenvolver estratégias para atrair população flutuante – turistas – que nos possam visitar, conhecer, gastar dinheiro e dinamizar a nossa economia local. Bem, esclareço desde já que na população flutuante estamos essencialmente a falar de população de outras cidades limítrofes (turista inter-concelhio) e não apenas o turista estrangeiro que chega a Lisboa e que nos ilustra o imaginário.

Mas o que temos para oferecer a quem nos visita?
Esta parece ser a questão fulcral a que temos que saber dar (ou construir) uma resposta estratégica, ligada de forma umbilical com a ideia de cidade que queremos ter e viver. O que tem o Barreiro que é relevante ao nível da cidade, do distrito de Setúbal, da área metropolitana de Lisboa, de Portugal e internacionalmente? Qual a procura orgânica para o que temos de relevante, qual a nossa oferta estruturada, que marketing / planeamento / organização temos, como efetuamos a operação e medimos resultados? O Barreiro pode ser a capital do quê de modo a atrair visitantes e a desenvolver uma marca de cidade que seja reconhecida?

Claro está que quanto maior for a integração destes diversos níveis de escala (do local para o global), maior será a capacidade de captar população para nos visitar. Mas a prerrogativa estratégica é valida desde a primeira premissa, a local, que afeta a nossa competitividade inter-concelhia e a capacidade de atrair população flutuante para nos visitar.

Pensemos um pouco naquilo que temos e que é genuinamente nosso, que não é replicável noutras localidades e que está no nosso ADN de cidade. Poderá o Barreiro configurar-se como um destino de massas, um destino de praia, um destino de nichos (seja cultural, industrial, desportivo) ou outro? Antes que responda recordo-lhe um evento que ocorreu na nossa cidade a 29 de Abril de 2014 (se a memória não me atraiçoa): o surfista Garret Macnamara vem ao Barreiro surfar a onda “Gasoline”, com honras de TV, jornais nacionais e locais e oferece uma excelente propaganda de algo que é genuinamente barreirense: a onda do catamarã! Mais importante, ele tem uma tirada digna do melhor publicitário do Mundo, quando para as televisões nacionais e imprensa afirma categoricamente: “Estas são as melhores ondas, do melhor que há. Não há ondas melhores para aprender a surfar, para levar os miúdos a surfar(…)”. Repare como neste exemplo temos algo que é genuinamente nosso, irreplicável, com dimensão distrital e metropolitana e numa atividade que atrai internacionalmente. Questione-se, passado um ano deste evento, qual o impacto económico que o nosso município capturou com a onda “Gasoline”? Haverá números das pessoas que nos visitam por este fenómeno? Qual a estratégia implantada (porque o timing daquelas declarações há muito se esfumou para que o momento, planeado, não fosse aproveitado logo de seguida)?

De igual modo podemos recordar quando a 24 de Junho de 2014 foi apresentado a bordo da embarcação municipal “Pestarola” o Projeto de Dinamização da “Avenida da Praia”, com logótipo próprio e que prevê (previa?) a dinamização daquele espaço de excelência do Barreiro, com uma vista completamente deslumbrante sobre Lisboa (e que vai ficar ainda melhor concluída a obra de prolongamento da muralha até ao Clube Naval) que pode ser uma âncora de atração da cidade do Barreiro. Um ano passou, certamente houve muito trabalho efetuado, mas quantos barreirenses sabem, decorrido um ano, que existe um logo da Avenida Bento Gonçalves e uma estratégia de comunicação unificada de marketing para este território? Se os nossos munícipes o desconhecem, será mais difícil captar gente de fora…

Se nada houver para capturar estas riquezas únicas, então existiram “somente” ações pontuais, uma fotografia. Sem estratégia. Sem criação de riqueza. Sem criação de postos de trabalho. Sem atração de população flutuante de forma consistente. Sem sustentabilidade. Sem aproveitar o que nosso e só existe aqui. Com discurso mas sem consequência prática. Não consigo de deixar de recordar em tantos momentos onde as ações foram pontuais e o culminar em si próprias de algo, quando poderiam ter sido o inicio da operacionalização do processo estratégico local, criado valor, postos de trabalho e alavancando atividade.

A estratégia pode (e deve, digo eu) assentar numa visão de valorização do que é nosso e que faz a nossa identidade, para capitalizarmos esta força e a transformamos num ativo da cidade que dinamize o tecido económico, dê sustentabilidade ao comércio local e fortaleça a coesão social. Urge pensar e operacionalizar a dimensão turística da cidade e a captura de população flutuante para que aqui gaste o seu dinheiro, com um marketing territorial forte, consequente, unificado e com uma visão clara do que queremos. Sem isto, a captura e operacionalização do que é genuinamente nosso fica invariavelmente por fazer, parecendo ser nossa sina termos a cidade construída com base no que outros nos vão determinando, nos vão dando a ilusão que podemos ter e nos vão retirando.

Cabe-nos fazer a nossa parte com aquilo que temos… e que é muito! Porque para se amar é preciso conhecer e valorizar para depois poder dar a conhecer e partilhar esta paixão que é o Barreiro!

 

Barreiro, 25 de Maio de 2015
Frederico Rosa
Coordenador da Plataforma 2830

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