Todo o processo de negociação de um novo acordo assim como um renovado programa de resgate para a economia grega tem, desenrolou-se sobre duas dimensões diversas (a política e a económico financeira) e que estão muito interligadas. O referendo sobre a proposta de acordo proposto pela União Europeia foi o factor que fez acelerar uma série de variáveis e , resta saber , se terá tido um efeito irreversível sobre o futuro da Grécia social e económico como a conhecemos até aos dias de hoje. Por terras helénicas existe a convicção de que este resultado foi uma lufada de ar fresco, mais oxigénio para o projeto europeu voltar a respirar e que permitirá ainda assim fechar o acordo que permite levantar o controlo de capitais e manter a Grécia no euro. Ou seja, que pior que está não ficam. As evidências são, no mínimo, contraditórias sobre esta conclusão.

 

Gregos não consideraram que o referendo fosse a palavra final sobre permanência do país no euro…

 

Olhemos para a dimensão política do referendo, cujo resultado surpreendeu claramente as expectativas da generalidade dos analisas , e observadores internacionais. Julgo que o factor mais impressionante  passa pela não associação por parte dos eleitores entre o acordo e a permanência do euro, ou seja, num país onde os barómetros mostram que mais de 75% dos cidadãos quer manter-se na zona euro, esse efeito não ficou patente na votação de um acordo que representa na prática a porta de acesso a essa manutenção.

 

A verdade é que para uma larga maioria dos gregos, vingou a tese defendida pelo primeiro ministro, de que  é possível forçar os parceiros europeus chegar a acordo com condições mais vantajosas , e permanecer na zona euro. E isto é um facto que representa uma vitória política de Alex Tsipras , sobretudo a nível interno, mostrando a incapacidade que a oposição demonstrou em capitalizar uma oportunidade de trazer ao de cima o debate sobre o euro, que este era (e era mesmo..) um referendo sobre a vontade de permanecer no euro. A nível externo, resta agora saber como se irão desenrolar as negociações nos próximos dias com a União Europeia, e se de facto,  é possível fechar um acordo com a União Europeia em tempo útil para repor a normalidade no sistema financeiro e evitar um colapso com consequências desastrosas.

 

Grimbo” parece ser  cenário mais provável a curto prazo, enquanto perdurar discussão de termos

 

Na semana passada, os analistas do Citbank abordavam um novo cenário que poderia decorrer da incerteza política causada pelo voto negativo, e que representa na prática a continuação da presente situação, com negociações inconclusivas com os credores e sem nenhuma solução sólida que traga financiamento à economia , isto combinado com o contínuo agravamento das medidas de controlo de capitais  e de suporte à capitalização dos bancos, onde aliás já se começa a ouvir falar de “bail –in” , na prática uma capitalização via depósitos dos clientes para suprir a falta de financiamento privado ou da falha no suporte por parte do Banco Central Europeu.

 

Esta Grécia no limbo, ou “Grimbo” começou ontem e tem agora um risco mais elevado de conduzir a uma saída do país do euro. O processo político está nas mãos dos líderes políticos europeus, mas parece muito complicado que seja fechado um acordo em breve, pois depois destes desenvolvimentos parece difícil – não se deve esquecer um novo acordo teria que passar por exemplo no parlamento alemão , ou em países com peso que vão ter eleições legislativas (tendo Espanha como exemplo máximo).

 

Tudo dependerá d’ELA…

 

No campo económico tudo fica novamente nas mãos do BCE. Não é possível adiantar sobre quanto tempo poderá a Grécia sobreviver sem um programa de assistência, mas se existe uma data que anda na mente de todos os analistas como de referencia extrema sobre quando o processo de “Grimbo” se desenrola para um processo de saída do euro (o Grexit) essa é a data de 20 de Julho. Nesse momento vence um montante de cerca de 3,5 mil milhões de euros que a Grécia terá que reembolsar ao Banco Central Europeu, que representa a parte europeia do  programa de ajustamento na Grécia.  Caso se verifique incumprimento nesta situação, o mais provável é que o Banco Central Europeu encerre a linha de liquidez de emergência (a ELA).

 

Se isto acontecer, o sistema bancário ficará incapaz de fornecer liquidez , ficará insolvente, e terá como consequência certa o colapso da economia helénica caso o Estado não retome as rédeas através do banco central  ver-.se obrigado a lançar rse-áigaçnsustentterioraçidez de emergstas como de referencia extrema sobre quando o processo de Grimda Grécia e introduzir a impressão de moeda própria assim como da recapitalização dos bancos – muito provavelmente através dos depósitos dos  clientes (“bail in”).  A execução de uma política monetária independente violaria os tratados europeus e eventualmente colocaria a Grécia com um pé fora do euro.

 

Tudo se arrisca a terminar com novo programa, provavelmente em condições mais duras que actuais

 

A partir daqui tudo pode acontecer de forma muito rápida, com sucessivos incumprimentos de divida e implementação de mecanismos de controlo de capital mais rígidos, com os bancos perto da ruptura, a economia pode rapidamente atingir uma deterioração ainda mais grave. O estado das contas publicas fica insustentável, e para a manter as suas obrigações o estado poderá ver-se obrigado a lançar os famosos IOU’s (notas de crédito) aos fornecedores, aos pensionistas e funcionários públicos. A situação social, com a ausência de um plano de intervenção internacional organizado pode ser próximo do que se verificou na Argentina , pelo menos. Com todas as consequências que podem derivar em termos de descontentamento político e a Grécia entrar numa situação de ingovernabilidade e instabilidade social.

 

Neste âmbito, e porque os desequilíbrios da economia Grega são elevados , será difícil retomar o crescimento, mesmo com a ajuda da moeda própria , caso não existam reformas estruturais, semelhantes as que constam no atual programa. A Grécia é uma economia pequena, com poucos recursos próprios e fechada (ver gráfico em anexo da Bloomberg) , e bastante dependente de bens importados. A depreciação acentuada  de uma nova moeda local irá levar a um subida forte dos preços dos bens importados, e apenas beneficiaria uma pequena parte do sector empresarial. Levaria ainda algum tempo (anos) para que se verificasse um ajustamento dos factores de produção.

 

Riscos de contagio e de redenominação da moeda não são nulos para a União Europeia.

 

Olhando puramente para a dimensão financeira e económica , uma saída do euros nos dias de hoje , tem bastante menos impacte que teria alguns anos atrás. Hoje a Europa tem maiores mecanismos colocados em prática, existe a União Bancária, e o Banco Central Europeu lançou um programa de compra de ativos em larga escala (um Euro QE) que permite manter a estabilização nos mercados de divida soberana dos países membros. Contudo, os riscos de uma saída não são nulos, sobretudo porque passa a ser possível um país sair da zona euro. Primeiro existe um problema , que é o chamado efeito Lehman, que os decisores europeus têm inteligentemente evitado. O “let them fail”, leva a territórios desconhecidos e não explorados, e como já foi visto,  isto ressente-se no mercado financeiro internacional, sobretudo pela desconfiança que se abaterá sobre o projeto do euro, e sobretudo sobre o risco dos ativos (ações, obrigações, etc) passarem a ser denominadas em novas moedas. Os grandes fundos institucionais terão isto em consideração e evitarão expor-se demasiado a ativos europeus. O passado já provou por diversas vezes que a confiança nas instituições é um tema importante e que estas dimensões devem estar totalmente controladas. Ainda que seja espectável, num cenário destes, que a Europa tome avanços quânticos na integração (mutualização de divida, maiores mecanismos solidariedade com as economias periféricas) , o risco deixou de ser zero, e terá de ser ajustado devidamente.

 

Pode a saída ser evitada ou não? Ainda existe tempo, mas muito pouco

 

Muito dependerá da forma como se desenrolarem nos próximos dias as negociações na dimensão política,  que definitivamente tomou conta do processo. No curto prazo, a vitória de Alex Tsipras trouxe afirmação como o único interlocutor  credível na Grécia e tem agora um mandato diferente do que anteriormente. Tsipras está agora mandatado para prosseguir as negociações de forma dura e que pode custar eventualmente sair do euro. Por outro lado, a não parece fácil que os principais países financiadores do euro – com Alemanha, França mas também a Espanha (que tem eleições este ano) – estejam em posição de ceder facilmente as pretensões de Atenas, como elas estão. A negociação terá de ser rápida e com um acordo de cedências hábil de parte a parte, algo que parece uma combinação complicada para o tempo disponível que existe. Cada dia a mais que se mantém neste cenário de “Grimbo” mais duros se tornarão os mecanismos de controlo de capital, e mais duro será o programa de resgate e de austeridade necessárias. No final, estou convencido, a Grécia precisará sempre de impor um programa de reformas que implica austeridade. Caberá, como já referi, o papel de estabilizador novamente a Mario Draghi e ao Banco Central Europeu enquanto o impasse político perdurar manter a economia Helénica ligada à máquina, nesta espécie de limbo em que agora se encontra.

 

Luís Tavares Bravo | Economista e Managing Partner da Dif Capital

Partilhe esta notícia