Numa sociedade do imediatismo, parece existir uma demanda que conduz à procura inconsciente de uma “terra prometida”, onde seja possível experienciar a promessa eterna de felicidade, de bem-estar e de sucesso. Vive-se, pois, numa era do espetáculo, onde pouco espaço se dá a mudanças e crescimentos, os quais, vamos tentando adiar com verdadeiros gestos de ilusionistas, deixando adiado o projeto individual e singular e a resposta a quem somos e para onde queremos verdadeiramente ir.

Esta utopia colectiva ajudará, certamente, a compreender porque é que tantas vezes nos acomodamos às zonas de conforto. Perpetua-se um “estar” melancólico pela vida, sem entusiasmo ou afinco, num deixar correr, num “agradar a todos” para não desapontar ao próprio, sem que se assuma genuinamente o querer e o desejo, na construção do percurso do que é ser pessoa.

É neste limbo que se situam inúmeras relações amorosas, que frequentemente nos chegam à clínica desvitalizadas, marcadas por padrões de dependência, destruindo e invadindo o espaço individual, sem que exista, pois, um verdadeiro espaço de encontro a dois. Esse espaço de encontro que é perversamente invertido num espaço de fusão com o outro, em que os limites se perdem, como se a relação fosse uma arena da qual se depende para existir. Mantém-se, assim, um pseudo laço, na expectativa de evitar rupturas, dor e sofrimento, mas com isso mantendo uma absoluta disfuncionalidade daquilo que é suposto ser o amor adulto, sincero, no respeito do outro enquanto indivíduo. É daqui que crescem as zonas pantanosas, sustentadas, frequentemente, por relações extra-conjugais, pelas pressões familiares e sociais, onde se perde de vista as fundações de quem se é, do que se permite, até onde se pode ir.

Na verdade, é inegavelmente um acto de coragem permitir-se sair do lodo e dar por acabados os truques de ilusionismo. É, mais do que isso, um prenúncio de saúde mental: ser capaz de colocar o limite ao que não basta e ao que destrói, em antítese do que constrói. Mas acabar com os espetáculos é difícil. É profundamente doloroso prescindir dos efeitos da varinha de condão e encarar a realidade com todas as suas partes decepcionantes, que, afinal, sempre estiveram lá, mas que não puderam ser vistas por inteiro – agora, desmascaradas e expostas na sua crueza… Olhar para o outro e desapontar-nos com ele, encarar os aspectos doentes do que nos ligava à relação ou, até, enfrentar a crítica e o desagrado da plateia, que exige mais truques de ilusionismo, num frenesim histérico e ensurdecedor. É, no final de contas, repensar a pseudo-estrutura montada, perceber a pouca firmeza dos alicerces para compreender que se deve partir num outro sentido, para algum lugar mais estruturado e seguro.

Trata-se de um tempo de convalescença psíquica, mas que, no final, promoverá, sempre, um amadurecimento da personalidade. Vivencia-se com turbulência a fantasia de que se perdeu tudo, fazendo emergir a culpa, a tristeza, o vazio. Contudo, é a partir da constatação real de que a perda existiu, que se inicia o caminho fundamental para a sua elaboração.

Não há separação sem dor, mas há a possibilidade de evoluir num outro sentido, mais integrado, mais verdadeiro, porque as perdas não serão, nunca, apenas perdas: são condições para ganhos, que não seriam perceptíveis sem a sua vivência.

Esta que é um constatação prática de quando o momento crítico da dor passa… Mas, até lá, chega de truques: dói.

O Canto da Psicologia

Dr.ª Joana Alves Ferreira (Lisboa)

www.canto-psicologia.com

 

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