470ml… Doei 0,75% de mim a quem precisa.

O apelo foi feito publicamente. O sangue escasseava. Fiz uma pesquisa na internet e vi que preenchia os requisitos. Fiz um telefonema e completei um PDF disponível online para poder sair do concelho e ir oferecer parte de mim. Um processo simples antes da minha “primeira vez”.

Etapa seguinte, chegar a Alvalade e entrar no Instituto Português do Sangue (IPS). Apara tal, aguardei numa fila pequena até à minha vez. Parecia que o universo estava todo devidamente mascarado. Depois, febre medida e papelada preenchida, com uma ficha extra para ser dador de medula óssea (procura-se futura compatibilidade). Seguiu-se a triagem, que incluía a medição da tensão arterial e um breve questionário sobre a minha pessoa. Antes da etapa final, fez-se uma pausa pela “pseudo-cafetaria”, onde água, sumos, bolachas e sandes complementavam os corpos dos futuros e recém-dadores.

Por fim, a última porta abriu, e o desejo da minha presença foi declarado. Primeiro, casaco no bengaleiro, e só depois fui encaminhado para a maca.

Sentado e de corpo reclinado, escolhi dedicar o braço esquerdo à causa, de modo a poder escrever com a direita. A explicação detalhada da enfermeira justificava ainda mais a minha presença. Não vi o seu sorriso por detrás da máscara, mas ouvi-o.

A veia cravada ansiava que a dádiva servisse de ajuda. O fluxo teimava em sair do meu corpo quente. Tive de abrir e fechar a mão dele… e assim foi bombeando. A tatuagem do antebraço, enfeitava a pele enquanto pelo tubo ao lado o sangue pingava.

À volta, outros dadores, devidamente distanciados, relaxavam com a cabeça para trás ou entretinham-se com os dispositivos móveis com a cabeça para a frente. A inesperada Beyoncé, nos ecrãs e no ruído de fundo, embalava-me, misturando-se com os sons expectáveis de uma clínica (o bip-bip das máquinas, o remexer de plásticos e material de laboratório, e as vozes tranquilizadoras e bem-dispostas das enfermeiras). À medida que o sangue fluía para fora, a inspiração fluía para dentro.

Entretanto notei algo. O meu sangue não era azul, era vermelho escuro. Não era próprio de realeza, mas o seu propósito era bem real, ainda mais em tempos surreais. Foi um processo rápido, 10 minutos apenas. Disseram-me que foram extraídos, benevolamente, 470ml. Mais magro após o procedimento e mais leve em termos de espírito. Sem quaisquer efeitos secundários, aguardei os restantes cinco minutos na “pseudo-cafetaria” para triturar duas bolachas.

Saí de Alvalade feliz. Não só por ter saído de casa, mas sobretudo pelo acto em si – uma mistura de altruísmo com egoísmo. Até ao fim do ano, voltarei para dar sangue, visto que uma parte de mim pode salvar outros. Como mensagem final, digo-vos: Sintam-se corajosos para tal.

Mauro Hilário

+ INFO : http://www.ipst.pt/index.php/pt/informacao-a-dadores