A pandemia da COVID-19 tornou claro que a saúde é o nosso bem mais precioso. Mesmo em tempos distópicos como os que vivemos, é evidente que as restantes doenças continuam a existir e cabe a cada um de nós não descurar os sinais que o nosso corpo nos transmite.

As doenças dermatológicas são bastante transparentes nesse aspeto uma vez que a nossa pele não é capaz de mentir – as alterações vêem-se! 

Na consulta de Dermatologia temos observado pacientes que admitem não ter valorizado alterações que notaram na pele no passado ano de 2020. O medo da COVID-19 falou mais alto que o receio daquele sinal que cresceu e se modificou, de ser cancro ou do incómodo diário e constante provocado por aquelas manchas vermelhas e descamativas que agravaram. Deixo-vos algumas palavras sobre dois motivos frequentes de consulta de Dermatologia aos quais devemos estar atentos.

Observação de lesões pigmentadas (os conhecidos “sinais”)

Visitar o dermatologista para rastreio de sinais faz parte de uma estratégia eficaz de prevenção do cancro. O cancro da pele é o tipo mais frequente de cancro no século XXI, sendo a maioria dos tumores totalmente tratáveis se detetados precocemente. Sinais que se modificaram, sinais que cresceram de forma inesperada, sinais com aspeto que destoam dos restantes, várias cores, hemorragia ou dor devem ser observados pelo médico dermatologista para correto diagnóstico e orientação. A observação clínica é complementada pelo exame dermatoscópico, aumentando a capacidade diagnóstica do médico. Perante uma dúvida ou suspeita clínica de malignidade, a regra é cirurgia dermatológica. A lesão é removida cirurgicamente e enviada para análise. Todos estes procedimentos decorrem em ambulatório, sem recurso a internamento, fazendo parte da rotina do dermatologista.

Psoríase

Falamos de psoríase como poderíamos falar de qualquer outra doença inflamatória da pele. A psoríase é uma doença frequente, estimando-se que em Portugal existam 200.000 pessoas com psoríase. É uma doença imunomediada, isto é, resulta de um erro no sistema imunitário que favorece o seu aparecimento. Assim, não é possível identificar uma causa específica, pois é uma doença complexa e multifatorial que depende da interação de fatores genéticos (tendência genética) e fatores ambientais (infeções, medicamentos, stresse entre outros). A psoríase envolve tipicamente o couro cabeludo, cotovelos ou joelhos, podendo também ser disseminada por toda a pele. Em outros casos, pode surgir apenas em áreas limitadas área genital ou palmas das mãos e plantas dos pés. As lesões na pele são rosadas, espessas ao toque e frequentemente são descamativas, ou seja, libertam escamas esbranquiçadas. Pode aparecer em qualquer idade, mas habitualmente surge aos 20-30 anos ou 50-60 anos. Muitas pessoas sentem-se infelizes ou ansiosas por não conseguirem controlar a sua doença, sofrendo repercussões ou limitações na sua vida pessoal, sexual e profissional. Cada vez mais se encara a psoríase como uma doença que pode atacar muito mais que a pele. O possível envolvimento das articulações (chamado artrite psoriática) bem como o aumento do risco de sofrer doenças cardiovasculares são hoje em dia consideradas comorbilidades, isto é, problemas de saúde associados à evolução da psoríase. Não tem cura mas hoje existem vários tratamentos capazes de controlar a doença. O melhor tratamento é o tratamento personalizado que mais se adeque a cada caso e a cada doente. 

A saúde da pele é a saúde do nosso maior órgão. Não ignore os sinais que a sua pele lhe transmite. Mesmo em tempo de pandemia, consulte o médico dermatologista.

Pedro Mendes Bastos

Médico especialista em Dermatologia e Venereologia

Clínica CUF Almada e Hospital CUF Descobertas