Política à moda antiga

Repetidamente abordo o tema da participação cívica na política. Isto por estar plenamente convencido de que é um pilar essencial para podermos atenuar e reverter o processo de divórcio em curso entre o povo, a política (em geral) e os partidos (em particular). Olhando para o panorama nacional, este é um conceito que parece algo abstracto e de difícil concretização. Os passos que foram sendo dados, como por exemplo, a possibilidade de apresentação de lista de cidadãos às eleições autárquicas, os orçamentos participativos no poder local ou da disponibilização de informação, incluída no princípio da transparência, embora importantes, são ténues e insuficientes. Pelo menos é o que nos continua a dizer a elevada taxa de abstenção e a fraca participação dos cidadãos em reuniões ou consultas públicas.

Uma das prováveis razões para este estado de coisas serão os sucessivos casos que envolvem políticos da nossa praça. Seja por corrupção, por favorecimento ou por ligações menos transparentes. Este tipo de recorrência mina a confiança na base dos eleitores e alimenta a incerteza que se generaliza a todos os políticos e a todos os partidos. Não será por acaso que o termo político tenha ganho na nossa sociedade um sentido pejorativo, quando deveria enaltecer o carácter de excepção de alguém que se dedica à causa pública, tantas vezes em prejuízo da sua vida pessoal.

Evidentemente que a maioria dos políticos serão pessoas honestas e que se movem por um espírito de missão superior ao seu interesse pessoal. No entanto, muitas vezes esbarram na máquina partidária e sua visão política começa a sofrer com um fenómeno de cegueira selectiva. O mesmo consiste em repudiar tudo o que não provenha da sua doutrina partidária. É preciso sublinhar que o facto ter uma inclinação política não significa que se feche na sua ideologia. Muitas das pessoas que se dizem apartidárias fazem-no mais por quererem demarcar-se desta postura, que vulgarmente conduz a discussões estéreis e infantis, onde se pratica o jogo do passa-culpas, sem nunca chegar a soluções cabais para os problemas.

No meu caso revejo-me no espaço da esquerda política. E tenho militância partidária. Mas tal não significa que concorde com tudo o que vem desse campo ideológico ou que repudie todas as acções da direita. Utilizo de bom senso, entendido neste contexto como a análise criteriosa daquilo que é colocado perante mim. Embora isso possa confundir muita gente, principalmente os políticos tradicionais. Mas para que a nossa democracia possa perdurar e tornar-se mais robusta é preciso que a política deixe de ser vista como um jogo de futebol e seus partidos como clubes.

Em conclusão, o caminho para recuperar a confiança da cidadania na política, e potenciar a sua intervenção, será árduo. Implica uma atitude mais séria e profissional por parte dos agentes políticos. Menos retórica e mais ação. E abraçar com naturalidade que o eleitorado exija o melhor da classe política e responsabilize os eleitos por suas medidas. Isso faz parte das regras democráticas. Quem não está disponível para ficar permanentemente sob escrutínio pelas suas opções políticas deve escolher outra actividade. Desta forma é possível que, paulatinamente, a cidadania participe cada vez mais na gestão política. Com a apresentação de ideias e sugestões; com a criação de movimentos e associações; querendo inclusive participar na gestão prática. Mas este caminho não pode ter retrocessos. Sob pena do divórcio ser decretado. A política à moda antiga deve ser enterrada de vez. Sangue novo precisa-se

Montijo, 07 de Dezembro de 2016

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