“Somos um país de invejosos“.

José Gil, “Pensar Portugal, hoje” (entrevista conduzida por Rodrigues da Silva), in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 19-1-2005, pp.13-16.


Gosto de Portugal! Uma das melhores sensações que posso ter é regressar a este “jardim da Europa à beira-mar plantado” e ser recebido com a simpatia e hospitalidade que nos é tão característica. Gosto do meu país como se gosta de um grande amor: tal como ele é…

Portugalzinho… país pequenino, mas com feridas profundas que só não vê quem não quer. Afinal, já diz o velho ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Onde numa revolução, em que ergueram cravos em vez de armas, clamavam ideais que ficaram por isso mesmo, por meras palavras. O 25 de Abril é uma fraude, e quem o fez deve sentir-se frustrado porque não conseguiu abolir as barreiras entre o poder e o povo. O País continua dividido entre o poder e o saber, entre a pobreza e a ignorância.

Portugalzinho… porque os séculos vão passando e as águas renovam-se, enquanto o povo continua impávido e sereno, assistindo de plateia à sua própria degradação. O português é temeroso, passivo e raramente dá o passo em frente, afrontado pelo medo da mudança. Apesar não haver ninguém como nós, portugueses, para gritar. Nada de diálogos. Quem fala mais alto é quem ganha. De preferência, faça-se de vítima. Resulta quase sempre.

País de “brandos costumes” (Fontes Pereira de Melo), que aceita tudo de forma leviana… Os sindicatos não são mais do que correntes dos pensamentos políticos que se sentam na Assembleia. Não é grave quando um político desvia em proveito próprio, tornando-se manchete. Ao fim de algum tempo, ainda consegue o pontapé de saída para um cargo superior.

Mas o político não é o único culpado! Português que se preze utiliza a técnica do desenrasca e até podia haver cursos de peritagem na fuga aos impostos onde, com certeza, seríamos os melhores.

Portugalzinho… que apresenta no pequeno ecrã sempre as mesmas caras para comentadores políticos ou políticos comentadores. Alguém já percebeu a diferença? É que as caras são as mesmas, as críticas e as opiniões também… Mas a televisão não pára de nos surpreender. Próxima grelha: telelixo como de costume, Big Brother’s, Secret Story’s, entre outros, em detrimento do indivíduo que quer continuar sóbrio e equilibrado. Óptimo para os políticos que preferem o ignorante.

Vivemos alienados com futebol e tudo gira em torno do mesmo. A arte, a leitura, enfim a nossa cultura, reduzida a uma bola no campo. Quem ganha são os jornais desportivos que continuam a ser líderes.

Portugalzinho… que se apresenta com slogans anti-racismo, mas que depois de abrir fronteiras às mais variadas etnias lhes dá em troca trabalhos forçados a baixo custo com o bónus de condições indignas de qualquer ser humano.

Somos a aberrante consequência de um capitalismo selvagem que não soube aproveitar os fundos comunitários europeus. Não investiu na educação, na economia ou na administração fiscal. Um exemplo feliz de utilização desses mesmos fundos está ao nosso lado, os nuestros hermanos

Portugalzinho… por vezes mesquinho, que se contenta com a desgraça alheia, que prefere o produto estrangeiro, mas do que gosta mesmo é das recordações “gratuitas” que encontra com facilidade no WC do avião, ou no hotel…

Portugal, Portugalzinho, que tem tudo para ser uma potência, mas que prefere maldizer o seu próprio umbigo sem olhar à sua volta, onde o sol espreita e a geografia convida. Somos genuínos, sabemos sorrir com pão e vinho sobre a mesa porque afinal somos portugueses. Somos grandes em tanta coisa e não sabemos dar valor às qualidades e características de um povo que foi conquistador há 500 anos atrás.


Cláudio Anaia
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