Este fim de semana ficámos a saber que Lobo Xavier, Conselheiro de Estado, participou na reunião do Conselho de Estado, estando infectado com Covid-19. 

Isto provocou algum alvoroço, pois as três principais figuras do regime, – Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e Primeiro-Ministro – podiam ter sido infectadas, o que as obrigaria a uma quarentena compulsiva. 

Felizmente, tendo em conta alguns acontecimentos recentes, uma dessas figuras estava obviamente fora de perigo. Falo do Primeiro-Ministro, António Costa. Tendo já demonstrado uma capacidade extraordinária de se multiplicar, como ficou demonstrado na Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira, não havia porque ficar preocupado com uma possível contaminação do Primeiro-Ministro. Se António Costa tivesse apanhado coronavírus, seria o Conselheiro de Estado António Costa que ficaria de quarentena e não o Primeiro-Ministro António Costa. 

Outras questões que esta situação levantou, foram acerca das normas de segurança (não) aplicadas na reunião convocada pelo Presidente da República. Juntar um grupo maioritariamente composto por idosos, numa sala, para conversarem, é algo que só passaria pela cabeça de alguns coordenadores de lares pelo nosso Portugal fora. 

Vindo de um órgão tão importante como o Conselho de Estado de um país que acolhe a Web Summit, esperava-se que fosse fornecida a novidade e a formação necessária aos conselheiros, sobre a existência e a forma de utilizar uma plataforma como o Zoom, Skype ou outro semelhante. Especialmente ao Dr. Rui Rio, que se apressou a escrever no Twitter que a aplicação StayAway Covid o devia ter informado acerca da situação clínica de Lobo Xavier (!). O líder do PSD ainda não percebeu como funciona a aplicação milagrosa, pois tem estado ocupado a proteger a convergência nacional em nome do patriotismo e não tem tempo para ler notícias que provêm da comunicação social, ou das fábricas de sapatos, que como diz, são quase o mesmo. 

Nessas malfadadas notícias, também constou que os membros do Conselho de Estado seriam todos testados, o mais rapidamente possível, pela Fundação Champallimaud.  O quenão constou foi a recusa do Dr. Francisco Louçã em ser testado por um privado. Alguns dirão que terá sido obrigado a compactuar com essa vilania. Eu diria que o ex- coordenador do Bloco de Esquerda, frequentou as mesmas aulas de multiplicação da personalidade que António Costa e, por isso é que consegue, em grande estilo, criticar a banca e participar no conselho consultivo de um banco, criticar os privados e ajudá-los a obter audiências na SIC ou condenar o “sistema” e ao mesmo tempo aconselhá-lo. 

Talvez seja, como se costuma dizer, algo cultural. Afinal de contas, nós portugueses, estamos sempre a indignar-nos com a corrupção, a injustiça, as “cunhas” e as “chico-espertices” e no entanto o PS é partido com mais anos de governação desde o 25 de abril. 

Nas intenções de voto, o PS continua firme e seguro na liderança, mesmo com a passagem de um Ministro das Finanças para Governador do Banco de Portugal, com a contratação de chefes de gabinete muito pouco recomendáveisou com a distribuição descarada de cargos governativos entre amigos e familiares sem qualquer experiência.

O programa de televisão  “Isto é gozar com quem trabalha”, no passado domingo, também nos recordou a coordenadora do Bloco de Esquerda que tem a sua versão Catarina-feroz-opositora-ao-Governo, que denúncia falhas no apoio à população, e a versão Catarina-parceira-de-Governo, que aprova Orçamentos de Estado com as falhas previstas. 

Secalhar o fenómeno da multiplicação de personalidades, não é assim tão original. 
Talvez seja também ele uma pandemia, que põe os portugueses a oscilar entre aquilo que querem e aquilo que fazem, e por isso as oscilações dos seus governantes, ainda que amplamente denunciadas, não cheguem para que ajam em conformidade com o que desejam.

João Conde