Os leitores do Distrito Online devem estar a pensar: “pronto, lá vem mais um artigo de opinião chato sobre política ou chumbos orçamentais”. De fato, a situação é propicia para escrever sobre estes temas, no entanto, hoje venho contar-vos uma história elucidativa que apela a reflexão.

Nas brumas de inverno da cidade de SX, reluzia mais do que tudo, um formoso Volvo de qualidade invejável para muitos dos habitantes de SX. O carro era de tal forma portentoso que condizia perfeitamente com o palácio faraónico da Câmara Municipal de SX. Neste palácio habitava o utilizador da máquina, O Presidente de SX – para quem aquele dia tinha sido especialmente frio.

O Presidente adorava comer e, portanto, fazia grandes galas ao nível de Dom Luís de França. Lá estavam pessoas importantes, do seu condado e também pessoas de renome do maior clube do país. “Quando for reeleito com vasta maioria tatuarei o símbolo do vosso clube junto ao símbolo do meu partido a dizer por baixo – Somos todos encarnadinhos” – Contava O Presidente entre gargalhadas soltas, no salão cheio de figuras imponentes. Foi então que o portão principal da sala se abriu e chegou a notícia que o abalaria neste dia. – “Senhor, o orçamento do próximo ano foi chumbado” – Disse o informante que acabara de entrar. O grande sorriso dissipou-se da face d’O Presidente que rapidamente deu a ordem para continuar o jantar, enquanto este se ausentava temporariamente para “tratar de alguns assuntos”.

O Presidente saiu do seu palacete com o seu motorista, e dentro do seu brand new Volvo, desceu até a margem da baia de SX que se encontrava a poucos metros de distância. As brumas haviam se dissipado, estava sozinho à margem da baia e segurava em suas mãos a fotografia da mãe querida que o abandonou subitamente no ano passado – A M.A. (Maioria Absoluta). Tomado de grande fúria, sentiu o vento que soprava nos seus cabelos e levantava o seu casaco como uma capa, cerrou os punhos e do fundo dos pulmões gritou em direção a outra margem da baia – “NÃO HAVERÁ SALÁRIOS!”.

Após este momento de solidão, puxou do bolso do casaco o seu Walk-Talk Vermelho, tecnologia de ponta desenvolvida pela coligação partidária verde-tinto, através do aparelho era possível falar com máxima discrição. Ligou ao para o Camarada da Informação:

– “Estou”.
– “Estou sim Grande Camarada Sr. Dr. O Presidente…”.
– “Creio que já sabes do sucedido”. Murmurou O Presidente.
– “Sim Grande Camarada Sr. Dr. O Presidente, sei sim, uma tragédia”.
– “Então já sabeis o que fazer Camarada da Informação. Ligai a Máquina!”.
– “Assim o farei Grandioso”.

No dia seguinte seguiu para o povo de SX as informações de que a cidade havia entrado em decadência. Assim não haveriam mais Volvos, mais jantares, talvez nem salários ou 13º’s, na mesma página O Presidente convocava uma grande reunião popular para apurar porque a população o havia afastado da querida M.A.

E assim foi feito, após um irredutível e convincente discurso que culpava claramente o povo de SX pelo sucedido na sua Cidade, O Presidente adentrou no seu Volvo para regressar a sua portentosa moradia. Foi então que três crianças se aproximaram do carro. O Presidente sorridente mostrou interesse pelo que queriam comunicar. Então uma miúda pequenina disse: – “Os meus pais só queriam um Hospital em SX”. Depois o miúdo ao lado completou logo a seguir: – “…E os meus, estradas de qualidade…”. Por último falou um rapaz mais graúdo que carregava uma pasta preta em baixo do braço, claramente era estudante de belas artes: – “Eu só queria que investisse um pouco mais na cultura e nos artistas da Cidade”.
O Presidente acenou com um sorriso e fechou o vidro fumado da viatura, mandou o motorista arrancar e foi então que murmurou:

– “Fascistas!”.

História fictícia, qualquer relação com a realidade é mera coincidência.

Felipe Damasceno

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