DE UM MUNDO UNIPOLAR PARA UM MUNDO MULTIPOLAR – Se hoje o comandante de um disco voador de outro qualquer planeta aterrasse no nosso e pedisse para falar com o líder dos terráqueos, dificilmente alguém lhe recomendaria António Guterres, Secretário Geral da ONU, mas sim o Presidente dos EUA, Donald Trump.

Concluídas as conversações entre os dois lideres, ninguém imaginaria que, pouco tempo depois, um vírus pudesse virar tudo do avesso. O primeiro efeito político secundário deste vírus foi o golpear profundo de um mundo unipolar, comandado pelos EUA. Viu-se já, no processo de prevenção, tratamento e produção de equipamentos de combate ao coronavírus, como os EUA foram obrigados a estender a mão à China, num claro gesto de submissão e reconhecimento da sua menoridade potencial. Os EUA perderam ou estão prestes a perder a hegemonia e a liderança para a China e esta emergirá como a maior potência do planeta (os chineses falam já em 5 anos para tal acontecer). Também a Rússia sairá muito maior do que entrou na crise. A UE, se não fizer mais do que fez e continuar a chegar atrasada à verdade, corre o risco de desintegração.

A DERROTA DOS DEFENSORES DO ESTADO MÍNIMO – Os Estados Nacionais sairão mais fortalecidos desta crise, assim como a exigência da sua maior robustez para responder com eficácia aos desafios da Saúde, da Educação, da Habitação, da Cultura, da Segurança, da Investigação Científica.

DA INTERVENÇÂO VIRTUAL À APROXIMAÇÂO SOCIAL – Ao contrário do que alguns supõem, esta crise vai potenciar mais as relações presenciais. Ao surto do isolamento, compensado pela intervenção virtual, renascerá com maior força o gosto pelo abraço, pelo toque, pela presença, pelo convívio social. Todavia, a maior utilização, no futuro, das novas tecnologias, mormente no teletrabalho, vai ser um facto.

UM COMBATE MAIOR CONTRA AS DESIGUALDADES DE RENDIMENTOS – Ninguém vai perceber ou aceitar que o CEO de uma empresa portuguesa do IPS 20 ganhe anualmente mais que 60 enfermeiros e 30 médicos especialistas juntos. Ou seja, que uma pessoa possa ganhar mais, num ano, do que 90 profissionais da saúde no seu conjunto.

Mas se falarmos em termos sociais, não se entende que em Portugal, antes da crise, 10% das famílias mais ricas usufruíssem de 53,9% da riqueza líquida do pais, enquanto 50% das famílias com menor riqueza liquida não fossem além dos 8,1% da riqueza produzida.

O combate contra as desigualdades é o combate do futuro e é por ele que passará a luta contra o capitalismo e pela coesão social.

A NOVA FORÇA DO SNS – Os SNS vão renascer com outra representatividade social e os profissionais de saúde vão ver mais reconhecido o seu papel fundamental nas sociedades modernas. Os governos vão ter que aumentar as transferências para os SNS se quiserem sobreviver politicamente a novas pandemias e a maiores escrutínios sobre a evolução do tratamento e da doença no SMS.

A INDEPENDÊNCIA DO EXTERIOR – Nesta crise ficou à vista, no caso português, a dependência do exterior. Viu-se que importávamos o que podia ser produzido em Portugal. A dependência alimentar e em meios de produção do exterior terá de dar lugar a uma maior autossuficiência interna. O turismo, que representa cerca de 9% do PIB, dificilmente voltará a ser o que era. Diversificar a estrutura produtiva portuguesa é um problema estrutural.

A COMPETIÇÃO E CONCORRÊNCIA/VERSUS COOPERAÇÂO E SOLIDARIEDADE – Esta crise pôs a nu o modelo capitalista de produção, bem como de circulação rápida de capitais, pessoas e mercadorias. Este modelo consumista exacerbado transporta consigo os germes das pandemias, bem como das desigualdades e das crises. A exigência de competitividade tornou- se o princípio político geral que comanda atualmente as reformas em todos os domínios.

É esta racionalidade neoliberal da existência que Margaret Tacher dizia que “pode mudar a alma e o coração”. Contra estas almas e corações depenados, os povos poderão e deverão unir-se no sentido de cultivar os valores da cooperação e da solidariedade, em vez dos da competição e concorrência.

UMA NOVA ARQUITECTURA MONETÁRIA – Uma nova arquitectura monetária sairá, por certo, desta crise, prevendo-se a redução ou o desaparecimento do dólar como moeda central e mundial de troca.

O ALASTRAMENTO DO DESEMPREGO E DA MISÉRIA – O alastramento do desemprego e das desigualdades sociais ganhará uma nova dimensão, em simultâneo com o levantamento de movimentos populares e de massas em muitas partes do mundo, no sentido da luta pela sobrevivência, mas que pode e deve ter como consequência uma alteração da correlação de forças a favor do trabalho.

No entanto, a experiência histórica já nos ensinou que as tragédias da vida não são suficientes para que milhões de pessoas, até então inactivas, encontrem as forças para se levantarem e defenderem as suas condições de existência.

A DEMOCRACIA DAS EMOÇÕES – Esta crise pôs a nu o isolamento social forçado de muitos idosos isolados e desempregados sem futuro. Neste sentido, a consciência dos sentimentos, como diz António Damásio, obriga-nos a formular políticas públicas nesse sentido. A neurose dos desempregados ou a crise dos reformados refletem uma crise existencial. Dar sentido a vidas sem sentido é um desígnio emergente das sociedades atuais.

Contra os que preferem ver os desempregados, os emigrantes, os excluídos sociais e os com vidas sem sentido morrer nas “águas geladas do calculismo egoísta”, há que opôr a unidade e a luta das vítimas da globalização neoliberal. Nesse sentido, não basta formular políticas públicas para remendar um sistema caduco e anti-humano, há que unir e organizar as vítimas deste sistema caduco no sentido da alteração da correlação de forças de favorável ao capital para favorável ao trabalho, rumo a uma sociedade mais avançada.

Alcídio Torres