Sendo nascida e criada em Setúbal, se me pedissem para definir a minha cidade diria que é uma terra de sol e mar, de bom peixe e boas gentes e paisagens de cortar a respiração.

Haveria certamente quem de imediato me acenasse com fantasmas e dissesse que é uma terra de grandes crises económicas e de indústria pesada. Mas, no fundo, não é isso o que nos define. As crises vão e vêm (muito devido à indústria que também vai e vem) mas o sol, o mar e as boas gentes cá ficam.

Ultimamente muito se tem falado e escrito sobre o futuro de Setúbal devido a um projeto de expansão do Porto de Setúbal que envolve meses de dragagens no fundo do rio. Muito se tem discutido sobre os riscos para o ecossistema, tanto de dragar como da passagem de navios maiores, sobre se o local de deposição dos materiais dragados (potencialmente contaminados) vai afetar ou não a pesca e a reserva marítima e até sobre o desenho do teatro de manobras de navios que, segundo pilotos experientes, parece ser inadequado e ir conduzir a problemas futuros.

No meio da discussão uma expressão parece ser recorrente: “Setúbal tem de decidir se quer ou não ter um porto”. Parece-me uma frase caricata e até mesmo provocatória que pouco contribui para debates elevados ou pacíficos. 

Setúbal não quer um porto nem deixa de querer um porto. Setúbal é um porto. Desde que existem barcos que Setúbal é um porto. Por cá já passaram fenícios, romanos, portugueses e estrangeiros, mas o denominador comum sempre foi o porto. Hoje em dia, Setúbal continua a ser um porto: de pesca, de recreio, de transporte de passageiros para a outra margem, de transporte de mercadoria para um mundo globalizado. É que um porto não se esgota na sua vertente industrial moderna, um porto é tudo o que nos liga ao mar e Setúbal é indissociável do mar. 

O que eventualmente nos pode ser dado a escolher ou não (provavelmente não, porque não se prevê nenhum referendo sobre este tema) é se queremos um porto industrial ou não. Mas mesmo essa pergunta peca por tardia: mais de um século depois de termos a industria aqui instalada é que vamos decidir se a queremos. Precisamente por isso, não creio que exista ninguém em Setúbal que seja contra o porto. Gera desenvolvimento, gera trabalho, gera riqueza, a paisagem já foi alterada e portanto não faria sentido “ser contra o porto” ou “não querer o porto”. Mas temos o direito de não querer ser reduzidos a um porto industrial. Temos o direito de não querer sequer que “o porto de Setúbal” seja melhorado na sua vertente industrial descurando as suas vertentes lúdica, piscatória e desportiva. Há anos que os setubalenses reivindicam uma rampa com condições para descerem os seus barcos diretamente para o rio, sem sucesso. Há anos que reivindicam preços acessíveis na travessia para Tróia, sem sucesso. Há anos que sonham com um rio sem descargas poluentes nem esgotos lançados diretamente no rio, sem sucesso. Há anos que os pescadores reivindicam uma lota com melhores condições, sem sucesso. Há anos que os estivadores reivindicam condições de trabalho dignas, sem sucesso. Agora a indústria reivindica uma obra megalómana que coloca sérias questões a tudo aquilo que define Setúbal: o bom peixe, as paisagens em que o azul do rio é cortado pelo verde da serra, os golfinhos a brincarem, as praias… com sucesso. É natural que os setubalenses se interroguem porque são os desejos da indústria mais prontamente que os seus e até que ponto será correto apostar na indústria como foco de desenvolvimento. 

Será a indústria ou nosso futuro? Será o turismo? Nesse caso, que tipo de turismo? E as pescas, vamos deixar definhar a pesca numa terra que se vangloria ser de peixe? Para onde vai Setúbal? E para onde querem os setubalenses que vá Setúbal?

Há portanto muitas questões que importa perguntar sobre Setúbal. Mas nenhuma delas é se queremos ou não um porto. 

 

Vanessa Sequeira

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