Reinventemos a educação no espaço público

Parte II

No meu último texto iniciei a abordagem de como entendo o papel da Escola pública. Deixei, então, por abordar a questão da multiculturalidade enquanto prática facilitadora e enriquecedora de novas aprendizagens e de vivências mais democráticas.

Ultimamente muito se tem falado de racismo e, de qual a percentagem que esta ideologia ocupa na irracionalidade de alguns portugueses. Se somos racistas, ou não, já todos sabemos a resposta, mas o que me importa saber é qual o papel que a Escola deve assumir no combate a este flagelo, qual o papel dos docentes junto dos alunos e das comunidades locais.

Enquanto Escola discriminadora, e discrimina muito, a representação transmitida será sempre a da intolerância, a de uma filtragem baseada em preconceitos e perturbações de caráter.

Uma Escola multicultural, que pretendemos, deve primar por práticas plurais. Condutas que se fundamentem na assimilação e no integracionismo não podem continuar a encontrar aqui defensores.

Visando, o assimilacionismo, a aglutinação de culturas, em que a dominante esmaga a minoritária, esta nunca pode ser uma atitude respeitosa, nem eliminadora de desigualdades.

Também o tão apregoado e consentido integracionismo, mesmo questionando a assimilação, continua a marginalizar. Questiona a assimilação por esta subjugar culturas minoritárias, mas ao defender a integração, só reconhece o direito à existência de outras culturas, desde que estas não ponham em causa, nem questionem, a cultura maioritária. O propósito final mantem-se, a discriminação só tem um significado.

Reconhecer a existência de diferentes graus de influências culturais já, só por si, marginaliza. Aceitar uma integração cultural, prossupõe, à partida, reajustamentos para que as maiorias não se sintam ameaçadas.

Assim sendo só nos resta o pluralismo cultural. Respeitando a igualdade de oportunidades e a coexistência de diferentes culturas, no seu interior, a Escola tornar-se-á verdadeiramente democrática.

Numa Escola que se quer despreconceituosa não têm cabimento nem os assimilacionismo nem os integracionismos. Se uma democracia não é o reinado de maiorias, a instituição escolar não se pode comportar como tal.

Para além das aprendizagens de saberes, e das aquisições de novos conhecimentos, cabe à Escola contribuir para a gestão dos problemas da contemporaneidade; Compete-lhe dar contributos para a formação de cidadãos justos, críticos e interventivos, cidadãos felizes e livres.

Enquanto estas premissas não se tornarem um objetivo; enquanto não forem desenvolvidas competências que permitam vivermos a multiculturalidade; enquanto não se aceitar a mestiçagem como fonte de enriquecimento pessoal, continuaremos a assistir ao crescendo de comportamentos racistas, xenófobos, homofóbicos e a todas as práticas discriminadoras.

Se as diferenças culturais não podem, nem devem significar conflitualidades, a batalha pela educação multicultural, quando ganha, será o verdadeiro trampolim para uma democracia que queremos continuar a construir.

Durante a 1ª Republica as questões da civilidade marcavam a vida nas escolas, hoje a nossa aposta, deve centrar-se na multiculturalidade.

Não basta legislar, as mentalidades não se alteram por decretos. São as ações que ajudam às mudanças

A educação só faz sentido se for pensada, tendo por base a diversidade cultural. Precisamos repensar práticas, reajustar formações (iniciais e continuas) e reinventar materiais.

Compete aos docentes, enquanto cidadãos reflexivos, uma maior disponibilidade para que a “escola para todos” saia do campo das miragens.

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