A Diabetes mellitus é uma doença metabólica caracterizada por glicémias elevadas durante um período prolongado de tempo. Pode ser dividida em tipo 1 (ou insulinodependente – normalmente diagnosticada em idades mais jovens, caracterizando-se pela perda de capacidade do corpo em produzir insulina) e tipo 2 (normalmente diagnosticada em pessoas mais velhas e caracterizada pela resistência à insulina, o que faz com que nas fases iniciais pode ser tratada apenas com medicação oral). 

Portugal é um dos países europeus com mais diabéticos. Dados da Direção Geral da Saúde (DGS) mostram que existem cerca de 1 milhão de portugueses diabéticos, dos quais apenas 56% estão diagnosticados. 

A diabetes pode causar muitas complicações sistémicas, como doenças cardiovasculares, AVC, doença renal cronica, dano nos nervos periféricos ou retinopatia diabética. Esta última é uma causa muito importante de baixa visão, sendo responsável em todo o mundo por 2.6% dos casos de cegueira, valor que aumenta muito nos países desenvolvidos e em pessoas em idade laboral. 

O que é a retinopatia diabética?

A retinopatia diabética é uma complicação ocular da diabetes e que se deve ao dano que a hiperglicemia provoca nos vasos sanguíneos da retina, o tecido ocular responsável pela captação de imagens antes destas de serem enviadas para o cérebro. Os principais fatores de risco para o seu desenvolvimento são a duração da diabetes e o mau controlo da glicémia.

Quais são os sintomas? 

Infelizmente, os sintomas só surgem habitualmente nas fases tardias da doença, altura em que os tratamentos são invasivos e muitas vezes o dano irreversível. Os sintomas mais comuns são a visão turva, a diminuição da acuidade visual ou a perda parcial ou total do campo visual. Para além do controlo apertado da diabetes, nenhuma outra intervenção é eficaz na sua prevenção.

Como prevenir, diagnosticar e tratar?

Como a doença é maioritariamente assintomática nas fases iniciais, todas as organizações internacionais aconselham um programa de rastreio da retinopatia diabética para deteção e tratamento precoce da doença. Todos os diabéticos devem realizar uma visita anual ao Oftalmologista ou participar em programas de telerastreio através de fotografias à sua retina (com um aparelho chamado retinógrafo) e que serão posteriormente avaliadas em centros de leitura. O intervalo entre as observações poderá ser diminuído no caso de serem detetados alguns sinais da doença. 

No caso de ser necessário tratamento, o doente é reencaminhado para a consulta de diabetes ocular onde poderão ser realizadas injeções intravítreas, tratamentos com laser ou cirurgia. 

Nesta altura de COVID-19, quais os cuidados que os diabéticos devem ter?

Os diabéticos fazem parte da população de risco para complicações graves da COVID-19. Assim, é fundamental manterem o distanciamento social, usarem máscara sempre que estejam em contacto com pessoas de fora do seu agregado social e higienizarem frequentemente as mãos. No entanto, existem várias complicações da diabetes que têm de ser detetadas, tratadas e acompanhadas, razão pela qual é importante manter o seguimento em consulta. Isto é particularmente importante em fases de maior descontrolo das glicémias, pois para além de aumentar as complicações associadas à diabetes, também aumentam o risco de complicações associadas às COVID-19.

E em relação à retinopatia diabética?Os diabéticos devem manter as observações para deteção precoce da retinopatia diabética, mesmo durante esta fase de pandemia devido à COVID-19. Doentes que já tenham retinopatia diagnosticada devem manter as consultas de seguimento. Desde que as unidades de saúde mantenham os protocolos para prevenção do contágio da doença, os doentes devem ir ao Oftalmologista ou aos centros de telerastreio para serem observados. O número de tratamentos e visitas ao hospital será sempre menor se a doença for detetada precocemente. 

João Nobre Cardoso, oftalmologista na Clínica CUF Almada e no Hospital CUF Tejo