Rouba… Mas faz.

Dificilmente encontraremos alguém que nunca tenha ouvido a expressão “rouba, mas faz”. Aliás, muitos de nós se calhar até já a proferiu numa ou noutra ocasião. É especialmente escutada em períodos eleitorais, com incidência nos sufrágios autárquicos. Ela serve para identificar os eleitos que, alegadamente, lançam mão de expedientes menos claros para dinamizar a actividade económica e deixarem obra feita. Na maior parte das vezes está ligada com as obras públicas, sejam elas grandes projectos ou intervenções mais corriqueiras.

Esta máxima, que se constituiu numa espécie de mantra para justificar as nossas inconcebíveis escolhas, não significa que um autarca tenha efectivamente “roubado”. Às vezes o seu papel é de mero facilitador. Mas mesmo isso coloca em causa a ética essencial na política.

O uso dessa expressão normaliza um comportamento que deveria ser fortemente criticado. De norte a sul do país são inúmeros os exemplos de autarquias em que pontificam este género de políticos. Em política, como em tudo o resto, não pode valer tudo. E os fins não devem justificar os meios. Desafiar as margens da legalidade e por em causa o princípio da transparência é questionar a conduta ética pela qual se deve reger a actividade política.

Por outro lado demonstra o fraco grau de exigência que temos com os nossos eleitos. Como se não fosse possível fazer sem roubar. Construir uma comunidade é deixar um legado, dentro da normalidade. Entenda-se por normalidade o estrito cumprimento da lei, mesmo que para isso seja necessário encetar processos burocráticos pesados e desfasados da realidade. O grande problema é que o caminho cumpridor é certamente mais trabalhoso. E isso é chato…

Mais que envergonhar os autarcas que prevaricam, esta expressão devia-nos envergonhar a todos, cúmplices que somos desta prática, quer pela passividade, quer pela justificação que encontramos na obra feita. Entre as nossas preferências devemos colocar aqueles que, quer ideologicamente, quer programaticamente, se aproximam mais daquilo que desejamos. Mas também devemos ponderar o carácter de quem personifica esses projectos. É certo que muitas vezes não se conseguirão identificar as “maçãs podres” e só após a eleição estas se revelam. Mas se recusarmos votar em quem já revelou falhas de carácter e protagonizou condutas menos claras, é meio caminho andado.

Que este ano de 2017, nas autárquicas marcadas para dia 1 de Outubro, expurguemos definitivamente a expressão “rouba, mas faz” do quotidiano político. E que sejam castigados nas urnas todos e todas que possam estar incluídos nesta categoria. Menos do mesmo. Mais honestidade, transparência e ética, precisa-se na política. E a sociedade agradece.

Miguel Dias

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