Tabaco, uma epidemia ainda por controlar Mário André Macedo

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o tabaco é a principal causa evitável de doença e de morte. O ato de fumar é perigoso e potencialmente fatal em qualquer das suas formas de apresentação, repercutindo‐se pesadamente em custos sociais, económicos e de saúde. A exposição ao fumo ambiental do tabaco, quer a forma de fumo passivo em 2a mão ou em 3a mão (a exposição a locais contaminados por fumo prévio de tabaco), em casa, em veículos, nos locais de trabalho e em espaços públicos fechados é um grave risco para a saúde dos não fumadores expostos, não existindo um limiar seguro de exposição. Em Portugal, é responsável por uma morte a cada 50 minutos, assim como uma a cada quatro mortes no escalão etário 50-59 anos. A cessação tabágica salva vidas, gera saúde, promove a equidade e poupa recursos financeiros.

As dimensões físicas, psicológicas, assim como as condições socioeconómicas em que os indivíduos vivem e trabalham influenciam a adição tabágica e o eventual sucesso da tentativa de cessação tabágica. Assim, o consumo de tabaco concentra-se nos grupos socioeconómicos mais desfavorecidos, que apresentam igualmente menor sucesso na cessação tabágica.

A adolescência é uma fase de profunda mudança em todas as dimensões. Está inerente, um maior risco para a possível adoção de comportamentos de risco, como o início de hábitos tabágicos. O grupo socioeconómico a que o adolescente pertence, conjugado com o ter ou não pais fumadores, exerce também influência para iniciar esta adição.

A concentração do consumo de tabaco em grupos mais desfavorecidos agrava a carga de doença em pessoas que já por si terão maiores vulnerabilidades de saúde. Assim, a prevalência de doenças relacionadas com tabaco, como doenças respiratórias, cardiovasculares e oncológicas, será maior nas classes socioeconómicas mais baixas, agravando as desigualdades em saúde na população portuguesa.

Desta forma, é possível chegar à conclusão que uma ação robusta e determinada sobre o tabagismo além de uma prioridade de saúde pública é um imperativo ético, que produz uma poupança acentuada de recursos na sociedade. Segundo a OMS, os custos do tabagismo reduzem a riqueza potencial até 3,6% do PIB. No caso português significa que o tabaco pode custar à sociedade um valor de 7,2 mil milhões de euros, que corresponde a custos diretos, indiretos, perdas de produtividade, absentismo e outros

tipos de custos intangíveis. De acordo com a proposta de orçamento de estado para 2019, o imposto sobre o tabaco produzirá receitas no valor de 1,4 mil milhões de euros. O imposto sobre tabaco tem assim várias justificações teóricas, incluindo a sua natureza de minimizar as externalidades negativas.

Se pertencem às classes sociais mais desfavorecidas menores taxas de cessação tabágica, qualquer ação que promova esta cessação tem efeito positivo sobre a equidade. Desta forma, o imposto sobre o tabaco, apesar de recessivo em natureza, produz efeitos progressivos na sociedade. Seguindo a mesma linha de pensamento, programas de cessação tabágica, além do seu efeito direto na saúde dos indivíduos, são programas geradores de mais equidade em saúde.

Num recente estudo, realizado na região de Lisboa sobre a prevalência do tabagismo numa população de adolescentes, concluiu-se que um em cada cinco adolescentes era fumador habitual. É preciso tornar efectiva a boa legislação produzida, que impede a venda de tabaco a menores de 18 anos e a proibição de fumar em recintos escolares. É igualmente altura de enfrentar o lobby tabaqueiro, aumentado o imposto sobre o tabaco. Um aumento de 10% reflectido no consumidor pode não só diminuir a prevalência total até 20% como diminuir o início de hábitos tabágicos na adolescência entre 3 a 5%.

Sabemos que o maior fator que influencia a adoção de hábitos tabágicos nos adolescentes é o ser filho de pais fumadores. Desta forma, as campanhas de prevenção tabágica na adolescência serão sempre curtas se não forem acompanhadas de um maior investimento na cessação tabágica dos pais. Estes programas são extremamente custo-efectivos, pois são baratos na sua concepção e operacionalização e com enorme retorno para sociedade.

Mário André Macedo

Enfermeiro especialista em saúde infantil

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