Terra Prometida ou terra maldita?

1. A divisão entre israelitas e palestinianos continua a ser aprofundada e agravada a cada dia que passa. A responsabilidade por isso recai essencialmente sobre o regime israelita e sobre os seus facilitadores externos, como seja a Administração Trump. É certo que do outro lado está um movimento extremista, o Hamas, que já há algum tempo domina os palestinianos, mas o facto é que, ao longo dos últimos anos, Tel Aviv fez mais estragos que um Hamas em plena forma e no seu melhor dia alguma vez conseguiria sequer almejar.

2. Os palestinianos continuam a ser tratados como uma população cativa e, com efeito, como inferiores raciais. As suas terras e aldeias continuam a ser alvo de constantes depredações e destruições, seja para fins de intimidação, seja para usurpar terras e estabelecer colonatos. Gaza é cada vez mais um enclave segregado e 3º mundizado, onde vastos números são concentrados num território diminuto, para serem expostos à escassez, à miséria, e ao racionamento forçado de bens essenciais que são impostos pelo Bloqueio. E, apenas alguns anos depois do bombardeamento indiscriminado de civis com munições de fósforo branco, em 2008, o território continua sob cerco militar permanente, a sua população exposta a frequentes agressões pelas IDF (o exército israelita).

Um exemplo recente disto foi a repressão brutal de manifestações pacíficas em Gaza, junto à fronteira com Israel. As IDF foram enviadas para ‘manter a ordem’, algo que fizeram pelo uso de snipers para alvejar e executar manifestantes pacíficos a sangue frio. Em resposta, as manifestações foram continuadas e expandidas, e alguns manifestantes começaram a aparecer armados (se é que pedras e cocktails molotov contra snipers à distância se qualificam como armas). Isto, claro, foi depois usado pelas IDF como pretexto para justificar e exponenciar a brutalidade. Ao longo de mais de 2 meses, o mundo pôde assistir (quase sempre impávido e sereno, o que foi inacreditável) a este espectáculo degradante, o homicídio qualificado de pessoas inofensivas por snipers postados a uma distância segura e confortável, cobarde e emasculada.

Ainda mais recentemente, em Jerusalém e durante o Ramadão (uma época sagrada para o Islão), polícia especial israelita invadiu a Mesquita de Al Aqsa (um dos santuários sagrados do Islão) para agredir, expulsar e deter arbitrariamente múltiplos fiéis palestinianos.

3. Neste momento, a política activa em Israel parece ser a de, com uma mão, quebrar e subjugar os palestinianos e, com a outra, provocá-los a Intifada– i.e. a rebelião em massa contra Tel Aviv.

4. Há algum tempo atrás, o Presidente Trump resolveu contribuir para a entropia, ao declarar Jerusalém como a capital de Israel e, mais que isso, como uma cidade essencialmente pertencente à etnia judaica. A declaração nega implicitamente aos palestinianos qualquer direito político a Jerusalém e, mais que isso, foi uma forma cínica e subtil de insinuar que o Islão tem um menor direitode herança cultural sobre Jerusalémque o povo judaico. Esta declaração não teve qualquer propósito discernível a não ser o de acirrar a divisão e as tensões na região.

5. Enquanto Trump fazia esta declaração, o regime israelita estava a redefinir legalmente o estado de Israel, através de uma alteração às suas Leis Básicas.

A alteração redefine Israel como um estado étnico de identidade judaica, no qual a nação é “o Povo Judaico”, e “o direito a auto-determinação nacional é exclusivo ao Povo Judaico[1]. Isto é o mesmo que dizer que a cidadania passa a ser reservada à etnia judaica. É algo que institucionaliza as já prevalentes divisão e segregação, e que formaliza Israel como um estado apartheid, e os palestinianos como subclasses inferiores.

Da mesma forma, inevitabiliza a deriva para uma solução de dois estados, mutuamente segregados, e serve, assim, para avançar o conceito neofeudalista de partição de países por linhas sectárias.

Mas, mais que isso, é a reedição – por israelitas – do conceito fascista da ‘nação’ como corpo étnico e racial, e ainda do credo nazi de ‘sangue e solo’: a ‘nação’ é o ‘povo judaico’, unido pelo ‘sangue’, a habitar o ‘solo’ ancestral que lhe pertence e é só seu.

É, acima de tudo, a repudiação do ideal renascentista (e, com efeito, judaico-cristão) do estado-nação moderno, que é secular e constitucional, e no qual todos os naturais são cidadãos de pleno direito, iguais aos olhos da lei, irrespectivamente de etnia, religião, ‘raça’, etc. E, no qual a ‘nação’ é a nação universalista, o agregado de todos os cidadãos.

6. Se há em Israel pessoas que querem redefinir o país pelo ângulo de identidade judaica, então seria boa ideia que começassem por cumprir a Lei natural na qual essa identidade assenta, e que está codificada na Bíblia. É a Lei que afirma que “não maltratarás o órfão e a viúva, o indigente e o estrangeiro – não te esqueças que foste estrangeiro na terra do Egipto”.

Aqui, também faz sentido apontar que David, que se tornou no grande rei do povo judaico, era ele próprio o descendente directo da união entre um israelita e uma estrangeira, Ruth a moabita.

7. Porém, os israelitas nem sequer deveriam olhar para os palestinianos como estrangeiros, mas sim como irmãos, já que é isso que, na verdade, são – povos irmãos. Ambos são povos de boa natureza e de boa vontade. Ambos são dotados de culturas intrinsecamente humanistas que, sendo culturas do Livro, têm como valores essenciais o amor ao próximo, a paz, a tolerância e a entreajuda para progresso mútuo. Ambos são filhos de Abraão, e ambos têm as suas raízes históricas e culturais nas terras a que podemos chamar de Terra Prometida. E, ainda mais que isso, são povos unidos pelo sangue. Os israelitas modernos são os descendentes da diáspora judaica, em especial da diáspora que se radicou na Europa Central e de Leste. Os palestinianos emergem da confluência dos múltiplos povos que habitaram a região ao longo dos últimos 2000 anos, o que inclui as muitas linhagens judaicas que nunca migraram para outras regiões. Com efeito, e como é demonstrado pelos estudos genéticos e históricos, os palestinianos tendem a ter considerável genética judaica e ainda costumes judaicos islamizados [2].

Israelitas e palestinianos são povos irmãos, embora temporariamente afastados pelas atitudes imaturas do passado, e ainda por intrigas urdidas por homens de intriga em lugares altos.

8. Estes homens de intriga incluem certos círculos oligárquicos sedeados na Europa e também nos EUA, que querem ter o conflito Israelo-Árabe à mão como instrumento de desestabilização, algo que pode ser activado sempre que seja preciso agitar as àguas no Médio Oriente. Porém, também gostam de ver irmãos a matar irmãos, para o que têm motivos cultistas e genericamente racialistas e anti-humanos.

9. Os instiladores de veneno também incluem as lideranças extremistas na Palestina e, em especial, a facção hoje dominante em Israel. Esta é a facção que, de modo geral, domina as estruturas administrativas e de governo, o cenário político-partidário, a ‘sociedade civil’ e o ‘aparelho de segurança do Estado’. Nas últimas duas décadas, tem tido como testas de ferro pessoas como Sharon, Olmert e Netanyahu. É uma facção essencialmente dominada por torcionários B’nai Brith, por gangsters de NY, e por antigos comissários comunistas de Leste. Isto são pessoas muito pouco recomendáveis, que se fazem agora passar por ‘conservadores judaicos’, quando não fanáticos religiosos e supremacistas raciais, para avançar uma política brutal de dominação e divisão.

Embora sempre tenha tido poder em Israel, esta facção ascendeu definitivamente ao topo com o assassinato de Yitzhak Rabin – assassinato esse com que, no mínimo dos mínimos, ficou extraordinariamente satisfeita, já que lhe permitiu capturar em pleno o controlo do país e destruir o Processo de Paz. Em especial, transformar Israel numa experiência pioneira para o ‘choque de civilizações’, e na balcanização e militarização da sociedade à volta de questões sectárias, fúteis, divisivas. Nisto, tem consistentemente feito tudo ao seu dispôr para agravar os palestinianos, e para fomentar a radicalização palestiniana sem a qual não poderia justificar as suas políticas.

10. Esta facção não se limita a criar um estado apartheid para as subclasses palestinianas. Também supervisionou a transformação da sociedade convencional israelita numa sociedade altamente controlada. Há a pretensa de eleições democráticas, mas a escolha é ilusória, entre opções que são concordantes em tudo o que realmente conta, e que só diferem entre si nas superficialidades e nos detalhes técnicos. A ‘ordem’ é mantida por segurança interna densa e opaca. A cidadania israelita tem um estilo de vida livre e confortável q.b., mas é mantida na linha pelo uso de tácticas de controlo que são discretas e dissimuladas, não obstante assertivas – como o cidadão médio depressa descobre, a partir do momento em que tome posições reais sobre assuntos reais.

11. É largamente pelos aspectos aqui mencionados que o Israel actual é tão intensamente admirado pelos neoconservadores americanos e por fascistas de nova geração na Europa (pense-se em gente como Orban ou Salvini). A sociedade controlada e segregacionista israelita é uma poderosa inspiração para estas pessoas – expressa o tipo de coisa que gostariam de infligir aos seus próprios países.

12. É essencial que a dinâmica de destrutividade em Israel seja interrompida o quanto antes para dar lugar à retoma do Processo de Paz, à superação das divisões e à tão adiada paz entre povos irmãos, no contexto de um estado único – moderno, secular e universalista. Isto implica que israelitas e palestinianos se livram das suas lideranças ineptas, corruptas e insanas.

13. Mas há que ser ainda mais ambicioso que isto. A resolução dos problemas do mundo passa largamente pela dos problemas do Médio Oriente e, neste nexo, é essencial a criação de entendimento Israelo-Perso-Árabe. Em particular, é essencial que Israel e os restantes países da região colaborem em prol de paz e desenvolvimento económico.

Israel tem um historial brilhante em desenvolvimento económico e civilizacional. Construiu um país a partir do nada e, no percurso, desenvolveu uma economia vigorosa, um dos melhores sistemas de saúde no mundo, excelentes capacidades em ciência e tecnologia, e fez uso de técnica agrícola para resgatar vastas extensões de terra ao deserto e torná-las em terra arável. Pode facilmente tornar-se num modelo a seguir para os restantes países da região.

Hoje, israelitas e palestinianos estão no ponto focal da dinâmica de ‘choque de civilizações’ no Médio Oriente. Porém, amanhã têm de estar no epicentro de uma Aliança de Civilizaçõesque una, entre outras, as religiões e as culturas do Livro, à volta dos valores naturais que partilham e lhes dão sentido: aqueles da paz e do amor ao próximo, da liberdade e da tolerância, da caridade, do desenvolvimento e do progresso.

Rui Garrido

P.S.Creio ser altamente provável que a actual conjuntura proporcione o regresso de um dos projectos mais acalentados por certos ‘bons conservadores’ israelitas: o projecto terrorista para a destruição do Domo da Rocha, o grande santuário islâmico no Monte de Jerusalém, e a construção de um novo Templo de Salomão sobre os destroços do mesmo.

Em 1984, a polícia israelita inviabilizou um ataque terrorista com esse exacto propósito, um complot de terroristas israelitas para detonar o Domo com cargas explosivas e, dessa forma, clarear a àrea para a construção do novo Templo [3]. A ter sucedido, isto teria provocado a mais grave vaga de violência religiosa alguma vez vista na região.

O projecto nunca foi abandonado, apenas adiado, e é plausível, senão garantido, que um evento deste género esteja na calha para as cenas dos próximos capítulos.

[1]O texto legal em “Basic Law: Israel – The nation state of the Jewish People”, na página do Parlamento israelita, Knesset.gov.il

[2]Sobre isto, ver, por exemplo, “Jewish Roots: Arabs in Israel”, Israel National News (2009), ou ainda “Blood brothers: Palestinians and Jews share genetic roots”, Haaretz (2015)

[3]Sobre este tema, e mais, recomendo vivamente o excelente artigo de Allen Douglas (1984), “Solomon’s Temple: a pagan crusade against Israel”, na Executive Intelligence Review

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