As nuvens tapavam as estrelas no céu, quando na sexta-feira, 8 de agosto, os The Gift surgiram no fundo negro do palco das Marés para abrir os dez dias das Festas do Barreiro’ 2014. A energia de Sónia Tavares rapidamente incitou a multidão a dançar ao som das canções mais marcantes dos 20 anos de existência da banda alcobacense. Num registo um pouco mais badaleiro e intimista, o tema “Primavera” fez acender a luz dos telemóveis dos presentes que responderam afirmativamente ao desejo da vocalista que pretendia ver “estrelar” o Barreiro.

Perto do final do concerto aconteceu aquele que pode ser considerado o grande momento da noite, Sónia Tavares e Nuno Gonçalves, sem que nada o fizesse prever, trocaram o palco pela plateia, com quem cantaram em uníssono a música “Fácil de Entender”.

O Distritonline esteve à conversa, no final do evento, com Miguel Ribeiro, guitarrista e fundador da banda oriunda de Alcobaça.

 

Distritonline [DO]: Ser músico era um sonho de infância?

Miguel Ribeiro [MR]: Em criança queria ser jogador de futebol, a música foi algo que foi surgindo. Tive a sorte do meu irmão, que sempre teve uma grande influência sobre mim em termos musicais, criar uma banda e a partir daí, depois de ter vários instrumentos em casa, o caminho ficou facilitado.

DO: A primeira vez que ouviram a Sónia Tavares cantar tiveram, imediatamente, a perceção que esse poderia ser um dos vossos maiores trunfos?

MR: Antes dos The Gift tive outras bandas, no entanto nunca tinha tido um vocalista que soubesse, realmente, cantar. A primeira vez que num ensaio a Sónia assumiu o papel de vocalista ficámos todos espantados, percebemos que tinha alguma coisa de diferente, mas nunca pensámos que iria tornar-se na voz que é hoje, também porque a inocência da altura não nos permitia imaginar isso.

DO: Se compararmos os The Gift de 1998, data em que foi lançado o álbum Vinyl, com os de 2012, em que foi lançado o disco Primavera, mais intimista, notam-se diversas mutações. Esse percurso foi motivado pelo amadurecimento da banda ou por uma procura de adaptação às novas tendências do mercado musical?

MR: Acredito que não traduz o nosso amadurecimento enquanto artistas, mas sim o espírito juvenil que nos caracteriza e que nos motiva a procurar coisas novas. Muitas bandas, à medida que os anos vão passando, acabam por acomodar-se a um estilo em particular. Os The Gift não, não gostamos de copiar o que está em voga, preferimos criar algo que nos surpreenda e que ao mesmo tempo tenha muito de nós.

DO: Cantar, maioritariamente, em inglês facilitou-vos a conquista do mercado internacional?

MR: Não. Cantar em inglês para uma banda portuguesa funciona exatamente ao contrário, os Madredeus que tiveram um enorme sucesso no estrangeiro cantavam apenas em português. O exótico da nossa língua pode ser uma vantagem. Relativamente aos The Gift, o que nos diferencia não é cantarmos em inglês, mas sim a forte componente estética e a voz da Sónia.

DO: Quais são os segredos dos The Gift?

MR: Acredito que não temos segredos. No entanto, o respeito e a admiração que nutrimos uns pelos outros e o facto de antes de sermos músicos já sermos amigos permitiu-nos ter uma maior proximidade comparativamente à maioria das bandas, e essas são, provavelmente, as nossas mais-valias.

DO: Comemoram em setembro 20 anos de carreira, qual é o balanço?

MR: É um balanço extremamente positivo, uma vez que ao olharmos para trás todos sentimos que valeu a pena. É um projeto que se terminasse amanhã, continuaria a encher-me de orgulho.

DO: Em relação ao futuro, quando surgirá o novo álbum?

MR: Possivelmente no próximo ano. Nós, felizmente, não temos esse tipo de pressões, mas temos ideias novas e vontade de fazer algo novo, portanto o novo álbum surgirá com naturalidade.

DO: Vários anos depois voltaram ao Barreiro para inaugurar as festas da cidade, como foi regressar?

MR: Fiquei muito satisfeito com a reação das pessoas, que, na minha opinião, reflete a qualidade do nosso trabalho e, por isso, enche-me de orgulho.

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