Desde há muito que o Montijo enfrenta sérios problemas no que concerne aos transportes públicos. Nos últimos anos a situação tem-se agravado particularmente. O município é servido na generalidade por duas formas de transporte colectivo: os Transporte Sul do Tejo (TST), empresa privada que assegura as carreiras rodoviárias, e o Grupo Transtejo (TT), empresa pública responsável pelas ligações fluviais à capital.

 

Os TST, embora sendo uma empresa privada, estão obrigados ao serviço público que deve ser prestado pelas empresas de transportes colectivos de passageiros. De resto, tal está protocolado com as entidades estatais competentes, antes Câmara Municipal, agora, por delegação de competências daquela, Área Metropolitana de Lisboa, e pelas verbas transferidas do erário público para compensar esse serviço. Nos últimos tempos a gestão da empresa tem-se cingido à manutenção dos serviços mínimos, eliminado alguns percursos, alterando outros a seu bel-prazer e diminuindo a sua frequência. O investimento têm-se limitado ao essencial, o que se reflecte num parque automóvel velho e sem condições, principalmente nas carreiras urbanas. Por outro lado, as freguesias orientais do município sentem enormes dificuldades de ligação ao restante concelho. E se aos dias úteis essa ligação é difícil, aos fins-de-semana ela é praticamente impossível, principalmente no caso de Canha. Acrescente-se ainda o preço das tarifas e a impossibilidade de utilização de passe intermodal em muitos percursos.

 

Na TT, empresa pública, a deterioração do serviço também se faz sentir. Fruto de sucessivos cortes orçamentais e de uma gestão que deixa muito a desejar. Como resultado temos hoje falta de pessoal operacional, inúmeros barcos avariados sem verba para serem arranjados e uma diminuição continuada de ligações, para além da supressão esporádica de outras. A situação é particularmente grave em período de férias dos funcionários ou quando se regista avaria duma embarcação. Como qualquer empresa que funciona no limite, cada vez que surge um imprevisto não é possível dar resposta… Está também por explicar a transferência, que deveria ser temporária, da ligação fluvial para o Cais do Sodré.

 

Entretanto, a nova centralidade do Montijo, o Cais do Seixalinho, que pretendia concentrar todos os transportes públicos da cidade, nunca chegou perto do esplendor anunciado. Pelo contrário. Agora degrada-se de dia para dia, com painéis a caírem e infiltrações um pouco por todo o lado.

 

Escrevo estas linhas não apenas como munícipe, mas também como utente dos transportes públicos. Possivelmente podem encontrar um certo conflito de interesses nesta matéria; assumo. Mas com a convicção que os transportes públicos são uma discussão incontornável nos dias que correm e que o futuro da mobilidade passará muito por aí, com a inevitável alteração do paradigma do transporte individual (automóvel). Quando esse dia chegar concluiremos que os transportes colectivos no Montijo são muito pouco públicos. Resta a esperança que as recentes iniciativas das organizações de utentes possam salvaguardar e melhorar o serviço público de transportes. Uma vez que as entidades competentes na matéria, pouco estão a fazer por isso.

 

 

Miguel Dias

Membro do Grupo de Coordenação Local do NT de Setúbal do LIVRE

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