Num momento de profunda crise do nosso sistema democrático, os agentes políticos não podem continuar a pautar a sua intervenção política protagonizando discursos politicamente correctos, ocos de conteúdo e tacticamente concebidos para com muitas palavras pouco ou nada dizer. Urge interpretar a vontade popular e ser consequente, com acções, na concretização deste desígnio. A sociedade não tolera, e tem sobre esta matéria enviado claras mensagens, que os partidos continuem fechados sobre si mesmos, reféns das suas máquinas e submersos na tentativa de conservar pequenos poderes negligenciando o interesse do País e, em particular, o bem-estar da população.

A liberdade de actuação e a pluralidade de opiniões configuram uma riqueza inalienável do Partido Socialista. Nos últimos dias, por um imperativo de responsabilidade que acarreta o cargo que ocupo, reservei-me em omitir a minha opinião sobre a situação actual do Partido Socialista. Mais acresce que estamos perante um assunto extremamente delicado, que infelizmente nem sempre tem sido tratado, de parte a parte, com a contenção verbal que se exigiria. No entanto, convicto de que um político se assume e luta pelas suas convicções, entendo que chegou o momento adequando para tornar pública e clara a minha posição.

As Eleições Europeias do passado dia 25 de Maio, vencidas pelo Partido Socialista, vieram clarificar alguns aspectos menos conseguidos da estratégia preconizada pela actual direcção política nacional, que já vinham sendo evidentes para quem acompanha com maior acuidade a actividade política da ocidental praia lusitana. Perante uma das mais qualificadas listas que o PS alguma vez apresentou a sufrágio, quando observamos o pálido resultado obtido no escrutínio europeu, alguns aspectos tornam-se evidentes. É insofismável que ao maior descalabro eleitoral da história da direita portuguesa, e concomitantemente, à censura inerente ao malfadado governo de Passos e Portas, não correspondeu um voto claro de confiança no PS enquanto alternativa de governo.

António José Seguro será com certeza um homem sério e esforçado, aqui e ali refém da conjuntura política e das suas próprias idiossincrasias políticas. No entanto, mais do que analisar o drama humano de quem deseja manter o poder a todo o custo, neste momento é fundamental analisar perfis, percursos e capacidades políticas e não embarcar no exercício estéril de nos compadecermos pelos estados de alma de quem percorreu o “caminho das pedras”. Estamos perante um político que inquestionavelmente não é mobilizador dos anseios de quem se propõe representar e não tem vindo a conseguir merecer a confiança da população portuguesa.

A todos quantos clamam a injustiça que por vezes pauta a actividade política, sobre a qual poderia dissertar com algum conhecimento de causa, é importante recordar que a opção estratégica de, em detrimento das questões europeias, focalizar a campanha eleitoral na arena política nacional correspondeu a uma escolha da exclusiva responsabilidade do próprio António José Seguro. Nomeadamente, o lançamento das bases de um programa de governo na véspera do referido acto eleitoral, desviou o foco da discussão do tema central – o futuro da construção europeia – transformando-o num ensaio legislativo. Os resultados são claros, apesar da parca vitória registada, o PS falhou em afirmar-se enquanto a alternativa sólida que o país carece. Por mais que alguns se tentem agarrar ferreamente ao poder, negando a natureza política da situação actual e se refugiem em questões meramente estatutárias, habilmente desenhados na blindagem do seu próprio poder, é por de mais evidente que este caminho acabou apenas por fragilizar o Partido e em enlear a própria liderança num conjunto de contradições.

A reunião da Comissão Nacional do Vimeiro trouxe à tona o pior da actividade política. A tentativa desesperada de evitar a todo o custo a devolução da palavra aos militantes através da convocação de um congresso, o esforço cénico de corporizar um tom agressivo e belicistas face à disponibilidade manifestada por António Costa e todos quantos discordam de propalado rumo, a proposta abrupta e não devidamente maturada da realização de umas eleições primárias abertas para a escolha de um candidato a primeiro-ministro, o anúncio de um conjunto de intenções do mais despudorado populismo, a convocação intempestiva de eleições federativas, são exemplos sintomáticos do desespero de quem não entendeu que estamos perante um imperativo de responsabilidade nacional. O PS não pode estar à mercê de quem, na tentativa de encontrar tempo para evitar o inevitável, se esquece que a nação não tem tempo para jogos políticos.

Como é facto público e notório, as pressões do aparelho e o feroz instinto de sobrevivência destes protagonistas violam gravemente o sentir generalizado da sociedade civil. É fundamental que se clarifique a questão em torno da liderança do Partido. Das bases até às cúpulas todos os protagonistas devem repudiar as tentativas de menorizar aqueles que discordam dos “Reis” e das “Leis” em vigor. O actual quadro exige a convocação de um congresso electivo que promova uma discussão elevada no seio do partido e escute a voz dos militantes. Não compreender isto é não compreender os requisitos mínimos para representar e liderar uma nação.

Num contexto saudável o poder é efémero. Recordo hoje as palavras sábias de um político barreirense ainda no activo: “Eu não sou um cargo, ocupo-o transitoriamente para servir.”
António Costa é um político responsável com provas dadas de gestão autárquica, parlamentar e ministerial. Um interveniente mobilizador cuja capacidade de liderar e estabelecer consensos é inegavelmente reconhecida até pelos seus adversários políticos e, mais relevante, um cidadão com um pensamento estruturado e substantivo sobre a governação de Portugal e sobre o caminho que a Europa deve percorrer. A sua disponibilidade inequívoca foi saudada por quem anseia por uma alternativa e temida por quem reconhece as suas capacidades. A afirmação da necessidade imperiosa de reformar a arquitectura institucional da união económica e monetária, a visão crítica sobre o papel do FMI no empobrecimento de Portugal, a recusa liminarmente assumida em estabelecer alianças com o centro direita em detrimento da procura de compromissos à esquerda, a defesa férrea da constituição portuguesa e a análise responsável e exigente da forma como se deve encarar a gestão da dívida pública portuguesa, consubstanciam alguns dos aspectos mais distintivos da visão do edil de Lisboa.
Por todos estes motivos, assim sejam criadas as condições para a marcação de um congresso, será com profunda convicção que apoiarei António Costa para liderar os destinos do Partido Socialista Português e voltar a merecer a confiança dos eleitores. Respeitarei a posição de todos os meus camaradas do PS do Barreiro e, da mesma forma que não titubearei perante qualquer tipo de pressão, difamação ou chantagem, salvaguardarei a liberdade individual de cada militante em tomar a posição que a sua consciência lhe indique. Deste modo, clarifico que o respeito institucional que tenho pela nossa estrutura local, e pelos homens e mulheres que a compõem, leva a que a presente declaração me vincula a mim e apenas a mim.

Quem nada quer mudar reduz a sua acção a responder esterilmente aos clamores da multidão mas quando aspiramos ao desígnio maior de alterar a realidade que nos rodeia temos de ter a audácia de seguir as nossas convicções. É este o caminho que pretendo trilhar e é por esta via que desejo merecer a confiança dos eleitores do Barreiro.

 

 

André Pinotes Batista
Presidente da Comissão Política Concelhia do Barreiro do PS
Eleito na Assembleia Municipal do Barreiro
Membro da Comissão Nacional do PS

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