Verão – Calor – Água , esta é a sequência que me parece boa: a época do ano; o seu modo natural de ser; e o que permite à vida adaptar-se a isso. Nuns sítios mais e noutros menos, é verdade, que há vida que se adaptou a viver quase sem água, e vida que precisa de muita água para viver; um pouco como o Verão, com o seu modo natural de ser, e onde estar a mexer é só estar a estragar. 

Lembrei-me de escrever isto depois de ter ido ver a exposição de Maja Escher, Um Dia Choveu Terra, que se centra nesse elemento fundamental – ou na falta dele: a água. 

Acho que este exemplo deixa perceber do que trata, e quais são as preocupações da artista, independentemente da arte poder ser mais ou menos abstracta. Nesta exposição há casos em que é bastante abstracta (eu numa das obras até pensei que uns aspersores eram umas antenas); mas no entanto as preocupações parecem-me ser bastante concretas. Que eu possa olhar para uma obra de arte, sem qualquer nota explicativa, e interpretá-la de um modo diferente do que a interpretou a artista, ou de qualquer pessoa que vá ver a exposição, parece-me uma coisa normal, salutar até; mas já que eu considere as preocupações inerentes, com cada vez mais informação associada, e fácil de pesquisar, e as tome como algo abstracto, parece-me irresponsável. 

Olhar para o que se está a passar, e cuja tendência é aumentar – aquecimento global, escassez de água, aumento da população, do consumo de água, de uma produção alimentar grande consumidora de água… e continuar a agir como se nada se passasse, é na minha opinião como estar a pôr a mão no equilíbrio da natureza e a estragá-lo. 

A imagem não tem nenhuma nota explicativa, e portanto é só a minha interpretação, mas suspeito que é para esse equilíbrio estragado que a seta está a apontar. Não creio que seja a primeira seta – acho que já começámos a fazer o caminho; mas quero crer no simbolismo, ou num possível simbolismo dessa imagem. É que se ainda se está a apontar para lá é porque ainda não lá chegámos, e portanto que ainda é possível arrepiar caminho. 

Pode parecer utópico, quando olhamos em redor, e vemos a marcha das coisas, e o rumo que elas estão a tomar, pode parecer mesmo mera fantasia isso de poder arrepiar caminho. Foi também assim que eu olhei para a ideia da artista de construir uma máquina da chuva; nada de mais utópico, e de mais fantástico, pensei. Mas não, era mesmo verdade – a ideia, quero dizer, não a máquina –; era mesmo verdade a ideia da artista de criar uma máquina da chuva. Ainda me pareceu esquisito, mas passado um bocado pensei: E porque não?! Não quer dizer que seja necessariamente uma máquina como as outras máquinas que estamos habituados a ver; pode ser só a estrutura de um mecanismo, ou apenas uma ideia disso… 

Na verdade isso não me interessa muito: saber de que máquina, ou de que ideia é que se está a falar. Interessa-me mais a inclinação que está por trás disso; saber que existe uma preocupação com os problemas do nosso tempo, e dos tempos que se avizinham, e querer contribuir para resolvê-los. O como, o conhecimento e a tecnologia podem sempre vir a surpreender-nos. Por isso, se calhar o mais importante éantes fazer com que eles não percam de vista o modo natural de ser das coisas.

A exposição de Maja inaugurou a 11 de Julho, e estará patente até 17 de Outubro, na Galeria Municipal de Arte de Almada.

João Gonçalves